quarta-feira, janeiro 17, 2007

Ao Outro Lado do Rio


Desde a semana passada estou com dois grupos de amigos brasileiros por aqui e temos aproveitado bastante estes dias, passeando por Buenos Aires e arredores. Uma das excursöes que mais nos agradou foi atravessar o rio da Prata e conhecer a cidade de Colönia do Sacramento, no Uruguai.

Sacramento foi fundada pelos portugueses em 1680 e virou o centro das disputas entre Portugal e Espanha, e depois entre Brasil e Argentina, pelo controle do Rio da Prata. A cidade mudou de mäos diversas vezes e a luta só encerrou quando o Uruguai se tornou um país independente em 1828, "algodäo entre cristais" na definiçäo do diplomata inglës que mediou o processo.

Além de praça forte militar, Sacramento foi um tremendo ponto de comércio. Embora proibido entre as colönias espanholas e portuguesas, rolava solto. Era o paraíso dos contrabandistas, que circulavam escravos, prata, carne, erva-mate.

Os uruguaios chamam a cidade de Colönia e fiquei impressionado com a beleza do lugar. O centro histórico é muito rico, foi declarado pela Unesco património da humanidade, e mistura influéncias portuguesas e espanholas. Me lembrou um tanto Olinda, pelo contraste entre a arquitetura tradicional e o mar. No caso, o rio da Prata.

Ter atravessado o rio de navio foi outra experiéncia marcante. Já havia dado muitas aulas sobre os conflitos no Prata e foi incrível estar lá e imaginar o que sentiram os soldados que passaram pelo local. O rio é bastante largo, mas näo tanto quanto pensei - há pontos da travessia em que é possível avistar tanto a costa do Uruguai quanto da Argentina.

A viagem de navio dura cerca de trés horas e por si só já vale o passeio. Em especial pelo convés, que fica repleto de pessoas conversando, tomando sol, tirando fotos. Na nossa travessia rolou até um pequeno jogo de futebol entre argentinos, chilenos e brasileiros. Até ser interrompido pela tripulaçäo. Mas foi muito divertido, com direito à inevitável discussáo sobre os méritos de Pelé e Maradona, havia até um rapaz com uma tatuagem de Dom Diego. Ele é quase uma religiäo por aqui.

Os chilenos do jogo eram um grupo de atores e malabaristas de circo que estäo em excursäo pela América do Sul, meio a passeio, meio a trabalho. Estavam indo para o circuito uruguaio de Colönia, Montevidéu e Punta del Este e nos mostraram alguns dos truques que faráo por lá, além de ficarem paquerando sem sucesso duas belas sul-africanas. Uma vida de liberdade e aventura, mas também de falta de grana e dificuldades constantes. O encontro foi täo curioso que penso em escrever um conto sobre o episódio, quem sabe inspirado pelas histórias semelhantes de Thomas Mann, aquelas narrativas ambientadas em navios ou hotéis nas quais o escritor alemäo é mestre.

3 Comentarios:

Anonymous Diogo Slov said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

A cidade é realmente fantástica!

Pena que na vez em que fiz a travessia as águas estavam BEM agitadas... eu estava indo muito bem até a hora infeliz em que eu fui passar no free shop -- maldito consumismo! -- e enjoei em 10 segundos.

A viagem já estava próxima do fim. Foram os piores 10 minutos de todos os tempos!

Quanto à arquitetura do lugar, dá vontade de recortar e carregar junto pra casa. Tudo organizado, bonito, conservado... nem parece que SP também teve colonização dos mesmos portugueses.

[]s

janeiro 17, 2007 4:17 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, Diogo.

Tivemos sorte e o rio estava bastante calmo. No fim de semana a travessia esteve pior, segundo os jornais, mas por conta de barcos defeituosos e da grande quantidade de turistas.

A arquitetura de Colönia é mesmo o máximo e existe pouca coisa täo bonita no Brasil, acho que só Ouro Preto e Olinda conseguem rivalizar com ela...

Abracos

janeiro 19, 2007 2:39 PM  
Anonymous Patricio Iglesias said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

O contrabando estiva t~ao desenvolvido no Rio da Prata durante os tempos indianos, que até os gobernadores de Bs. As. conseguíam produtos clandestinos e Colónia era, como você deze, o centro disse mercado ilegal.
Respeito ao melhor futebolista do mundo, faço uma proposta. Pensando que seus estilos s~ao diferentes, por qué n~ao pensar que Pelé é, com sua inteligénça, o melhor estratega do fútebol e Maradona, com sua habilidade com o balom, o melhor artista? Assim, os dois futebolistas mais grandes em dois ramas distintas seriam sudamericanos!
Saludos argentinos!

janeiro 26, 2007 10:56 PM  

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