segunda-feira, outubro 23, 2006

Travessuras da Menina Má



“Aquele foi um verão fabuloso”, nos diz Vargas Llosa, quando o adolescente Ricardo conheceu a chilenita com olhos cor de mel e deram início a um amor profundo, doloroso e turbulento que se arrastaria por 40 anos e passaria por Lima, Paris, Londres, Tóquio e Madri. “Travessuras da Menina Má” é o mestre peruano em grande estilo, ainda que diferente do habitual: terno, romântico, com uma doçura que permanece mesmo nos momentos mais sórdidos do enredo.

O jovem Ricardo tem apenas duas ambições na vida. Amar a Niña Mala e morar em Paris. Ele se instala na capital da França como tradutor e intérprete, mas sua amada atravessará seu caminho sob diversos disfarces: aprendiz de revolucionária na Paris e na Havana dos anos 60, esposa de um milionário britânico na swinging London da década de 70, amante de um mafioso japonês e organizadora de golpes, tramóias, mentiras e traições que infernizam a vida de seu eterno admirador. Aos poucos, descubrimos alguns de seus segredos, com a origem de suas inquietações nas iniqüidades da vida peruana.

Além do amor entre os protagonistas, Vargas Llosa costura com incrível sensibilidade os personagens secundários, como os grandes amigos de Ricardo: Paul, que embarca na epopéia suicida da revolução peruana; Juan, cujo mergulho na outra revolução, a sexual, revela-se igualmente trágico; Salomón, intérprete genial e melancólico; Simon e Elena, o casal de vizinhos, o tio peruano que lhe dá constantes notícias do descalabro do país.

A trama do romance acompanha as diversas etapas da vida de Vargas Llosa, como se o já idoso escritor fizesse um balanço de sua educação sentimental. E com espantosa leveza e suavidade, embora persista a tensão entre os personagens: a paixão (amorosa, política, o que seja) de cada um é o que dá sabor à vida, mas também é aquilo que os ata ao sofrimento, à dor e à morte.

E ainda assim, “Travessuras da Menina Má” me deixou com uma sensação de serenidade e paz. Talvez pelo livro, numa impecável edição espanhola, ter sido presente de uma amiga recente, mas já muito querida. Talvez pelo inegável carinho do autor por cada personagem. Ao lê-lo, pensei na Niña Mala como a protagonista da canção Te Recuerdo Amanda, do chileno Victor Jara:

Y tu caminando
Lo iluminas todo


Valha-me Deus, tudo soa tão bonito em espanhol...

**

Me ausento do Rio de Janeiro e do blog por alguns dias: sigo para Caxambu, Minas Gerais, para o encontro anual da Anpocs, reunião de cientistas sociais e outros seres esdrúxulos.

5 Comentarios:

Blogger Igor said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Vamos começar pelo fato de que a capa em espanhol é infinitamente mais bonita que a capa em português. Isto posto, estou LOUCO para ler esse livro.

Comprei o da costurerinha esse final de semana e devo começar a lê-lo hoje à noite...

Por que o senhor não foi à fragata? Foi muito bacana!

Abraço grande do amigo-aluno que já está com saudade

outubro 24, 2006 1:47 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Meu caro,

1- Sim, a capa original é muito mais bonita e captura com perfeição o sonho parisiense do protagonista.

2- Se o livro da costureirinha for tão bom o quanto o filme, o senhor está feito.

3- Voltei da viagem inesperada ao Espírito Santo muito cansado. Dormi a tarde inteira e só acordei às 18h30...

Abração, direto de Caxambu

outubro 25, 2006 8:06 PM  
Anonymous jorge said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Li o livro Travessuras da menina má, o que mais me chamou a atenção foram as descrições tão finas e delicadas que faz Vargas Llosa de seus personagens cito aqui a que mais me chamou a atenção.
Na havia mudado muito naqueles quatro anos.Tinha o mesmo porte esbelto, bem formado com cintura estreita, pernas magrinhas bem torneadas e tornozelos finos e quebradiços de boneca. Parecia mais segura de si mesma e mais desembaraçada que antes,e balançava a cabeça no final de cada frase com uma displicência estudada. Tinha clareado um pouco o cabelo, agora mais comprido que em Paris e com umas ondas que eu não recordava; sua maquiagem era mais simples e natural que o estilo carregado de madame Arnoux.Estava com uma saia bastante curta, bem na moda, e com os joelhos à mostra e uma blusinha decotada que exibia seus belos ombros lisos e sedosos e destacava seu pescoço, gracioso pistilo rodeado por uma correntinha de prata com uma pedra preciosa, uma safira talvez, que com o movimento balançava travessa sobre a abertura onde assomavam seus seios empinadinhos.
Nossa essa descrição é muito boa

junho 15, 2007 12:17 PM  
Anonymous Anônimo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Livro maravilhoso!
A capa é só um detalhe...

outubro 21, 2009 12:22 PM  
Anonymous Anônimo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Eu o devorei compulsivamente em dois dias...Acabei hj, e fiquei com um sabor d quero mais... Esse cara é genial!!!

janeiro 13, 2011 2:30 AM  

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