sexta-feira, outubro 13, 2006

O Grande Jogo



Kipling chamou de “O Grande Jogo” a disputa por poder entre os impérios britânico e russo na Ásia. Desde então a expressão se generalizou para abarcar as guerras frias de todos os tipos. Gosto de usá-la como sinônimo de espionagem e estes anos pós-11 de setembro têm sido férteis em boas obras no gênero.

Devo ao Igor a dica (e o empréstimo) do romance “O Bom Alemão”, de Joseph Kanon, que explora um cenário pouco utilizado: Berlim em meados de 1945, logo após a rendição dos nazistas. A cidade vive um momento caótico, em ruínas, ocupada por diversos exércitos e com os russos cobrando a conta da ocupação alemã em seu país através de estupros e saques generalizados.

Neste ambiente chega a Berlim um jornalista americano, Jake, que lá vivera antes da guerra. Ele tenta reencontrar sua antiga amante, casada com um cientista importante no programa de foguetes dos nazistas. Acaba se envolvendo com o misterioso assassinato de um oficial americano. Quando as duas tramas se cruzam, Jake se verá no centro de uma rede de intrigas que marcam o confronto entre EUA e URSS pela nata da ciência alemã, prenunciando a Guerra Fria que só eclodirá oficialmente dois anos mais tarde.

Kanon tem boa prosa e maneja com classe os elementos da espionagem, com destaque para sua excelente caracterização do caos berlinense. “O Bom Alemão” foi adaptado para o cinema, sob direção de Steven Soderbergh, com George Clooney e Cate Blanchett no elenco. Estréia em dezembro. Promete.

Já em “Quelques Jours en Septembre”, uma das boas surpresas do Festival do Rio, a ação se passa na semana anterior aos atentados de 11 de setembro. Juliette Binoche interpreta Irène, espiã francesa que recebe um pedido de Elliot, velho amigo e colega de profissão americano: reunir Orlando, sua filha francesa, que ele não vê há anos, e David, seu enteado americano – que sequer sabiam da existência um do outro. Elliot virou uma espécie de free-lancer no Oriente Médio e tem uma importante informação a passar para seus filhos e para clientes bilionários.

Enquanto esperam por Elliot, Irene, David e Orlando circulam por Paris e Veneza, tendo na cola um assassino com contas a ajustar (John Turturro) e hábitos heterodoxos, como recitar poesia romântica britânica e fazer psicanálise lacaniana. O suspense é bom, mas o melhor são as relações entre Orlando e David. A moça acha o pai um crápula, o rapaz o idolatra. Aos poucos, a antipatia inicial entre os dois vai dando lugar a um clima de romance, temperado por humor em cima das diferenças culturais entre americanos e europeus.

Belo trabalho de estréia na direção de um roteirista argentino veterano, Santiago Amigorena. Olho nele.

2 Comentarios:

Blogger BB said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Carissimo,

Tenho certeza de que voce nao vai ter um minuto para ler a minha sugestao, mas ela vai assim mesmo. Assim que voce puder, leia "A Companhia" de Robert Littell (ed. Record). Leia.

A historia se desenrola a partir dos primordios da CIA e chega ateh os dias atuais. O livro eh enorme mas fantastico.

Grande abraco.

outubro 13, 2006 3:45 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Meu caro,

de fato, por agora ando bastante atarefado com os preparativos da viagem, e com um livro do Norman Mailer esperando na cabeceira.

Mas pode deixar que sua dica está anotada, o tema me interessou bastante!

Abraços

outubro 14, 2006 12:40 PM  

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