segunda-feira, maio 01, 2006

Um Método Muito Perigoso



Quando Nietzsche Chorou” é um best seller improvável. Quem se interessaria por um romance de idéias que faz a ponte entre a filosofia alemã do século XIX e o nascimento da psicanálise? Milhões, a julgar pelo sucesso do livro. Mas acredito que os leitores foram atraídos mais pelos defeitos do obra do que pela suas qualidades. Comecemos por estas.

Nitetzsche prenunciou conceitos posteriormente desenvolvidos por Freud. Se você ler em seqüência “A Genealogia da Moral’, do filósofo, e “O Mal-Estar na Civilização”, do dr. Sigmund, ficará espantado com as semelhanças. Estava tudo lá. Ambos tinham amigos em comum, como Lou Salomé – bela e ousada aristocrata russa que arrasou corações de metade da intelectualidade européia e se tornou uma psicanalista pioneira.

É Salomé que inicia o romance, ao procurar o famoso médico Joseph Breuer e pedir-lhe que atenda seu amigo Nietzsche, que após levar um fora da bela russa caiu em depressão profunda e está à beira do suicídio.Ela sugere a Breuer que use no filósofo seu método experimental de “terapia pela conversa”.

Breuer hesita. Desenvolveu a técnica ao tratar da paciente que entrou para a história médica como Anna O. Mas além de não conseguir curá-la, ficou obcecado sexualmente pela moça. Na verdade, a situação de Breuer não é tão diversa de Nietzsche. No auge da carreira e casado com uma linda mulher, está infeliz, deprimido, com sentimentos de vazio, frustração, medo da morte e da velhice.

Claro que Breuer topa o desafio e pede a ajuda de seu mais brilhante discípulo, o jovem médico Sigmund Freud. O relacionamento de amizade e cumplicidade intelectual entre os dois é o melhor do romance – ou talvez eu tenha gostado tanto porque reflete minhas experiências com meus mentores acadêmicos. A vida universitária é muito mais do que coletar notas de rodapé, graças aos deuses.

Breuer passa a tratar de Nietzsche pelo método da terapia pela conversa, mas logo a relação entre os dois se torna mais ambígua – no fundo, o filósofo é que está ajudando o médico a superar seus traumas e desenvolver a técnica que o tornará célebre. Quem conhece psicanálise vai se divertir com os dois experimentado em primeira mão fenômenos como a transferência. E também constatar que era mesmo um “método muito perigoso”, como descreveu um historiador da disciplina.

Chegamos aos defeitos do livro. O autor, que é um respeitado professor de psicanálise nos EUA, apresenta a filosofia de Nietzsche como “pérolas de sabedoria” adocicada. Embora cure Breuer de sua depressão, não altera em nada sua atitude diante da vida e dos problemas que o defrontam. No fundo, o médico apenas fica mais conformista. Não há transformação de personalidade, abertura de horizontes. O leitor pode fechar o livro tranqüilo e continuar a chafrudar na mediocridade cotidiana. Se bobear, até votar no Alckmin.

Não dá para imaginar Ana Karênina e Emma Bovary voltando para um casamento infeliz, ainda que milhões de pessoas façam isso rotineiramente. A grande literatura é como a psicanálise em seus primórdios – um método muito perigoso de mergulhar na alma humana e confrontar o que existe de difícil, belo e complicado nela. E, eventualmente, retornar da jornada uma pessoa melhor e mais completa.

Em tempo: na vida real Breuer nunca tratou de Nietzsche e depois de Anna O, não usou mais a técnica da terapia pela conversa. Freud é que pegou a idéia e levou-a adiante, entre outros fatores porque era um apaixonado por literatura e tinha queda pelos caminhos perigosos que espreitam a vida.

4 Comentarios:

Blogger Igor said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Olha, eu tô achando que vc está fazendo de sacanagem!! Só porque eu já me assumi como uma ilha cercade de academicismo, vc fica falando de ficção!!

Só não vou falar cobras e lagartos, porque eu li Quando Nietzsche Chorou ano passado. Comprei o meu na Bienal. Achei o livro sensacional, embora admita que o defeitão de fechar o livro e levar a vida seja palpável. Mas, sabe Maurício, acho que isso depende de quem lê.

Por mais que o Yalom lance mão de recursos ficcionais, alguém que queira dar uma repensada na vida pode encontrar ecos nas entrelinhas. Como diversão o livro também é bacana...bem, eu gostei. E acho que tirei algo mais dele. Será que fui só eu? =p

Abraço com saudade

maio 01, 2006 11:58 PM  
Anonymous nica said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Mais um livro pra eu colocar na minha lista. :)

Mudando de assunto, o que você achou da decisão do Evo Morales de re-nacionalizar os recursos energéticos da Bolívia? Você é meu assessor para assuntos latino-americanos favorito!

maio 02, 2006 7:31 AM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, Igor.

Infelizmente para você estou com poucos compromissos acadêmicos, de modo que me sobra tempo para mergulhar na ficção, em especial autores contemporâneos! :-)

Aguarde ainda esta semana a resenha do "Amigos Absolutos", do John Le Carré, excelente!

Gostei muito do livro mas me parece que a mensagem dele é algo como "ei, sua vida até que é legal, basta você encará-la de outra maneira!".

Meu pai, que me emprestou o romance, agora quer que eu leia "A Cura de Shopenhauer", do mesmo autor, mas vai ficar para depois porque a fila é grande.

Querida Nica,

fui surpreendido pela decisão do Evo ao ler os jornais de hoje. Certamente vou escrever sobre o tema, mas ainda preciso me informar melhor sobre a natureza do decreto presidencial.

Nenhum doutorando em política latino-americana morre de tédio, posso lhe garantir isso!

Abraços

maio 02, 2006 9:43 AM  
Blogger Igor said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Tio Maurício,

Também li A Cura de Schopenhauer. Mas esse eu achei bem mais fraco..e a narrativa bem menos envolvente...

Tô esperando aquele que vc disse que vai me emprestar, que se passa na Africa do Sul! =)

Abraço forte

maio 02, 2006 4:52 PM  

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