quarta-feira, maio 10, 2006

Império


Recentemente me envolvi num debate sobre as bases militares dos EUA na América Latina. Disse que não são importantes na política externa americana. Meus interlocutores afirmaram o contrário, destacando principalmente o desejo de Washington de controlar os recursos naturais do continente. A discussão despertou meu interesse em saber mais sobre o tema e uma amiga me emprestou dois ótimos livros, Sorrows of Empire, de Chalmer Johnson e American Empire, de Andrew Bacevich. Ambos foram publicados há poucos anos, na esteira das críticas à diplomacia de Bush. Seus autores são ex-oficiais militares, atualmente professores universitários.

Os dois compartilham a visão de que os EUA construíram um império a partir de suas vitórias na Guerra Hispano-Americana (1898), nos dois conflitos mundiais e na Guerra Fria. Não é o império tradicional de colônias, mas uma zona de influência político-econômica, na qual desempenha papel importante a ampla rede de bases militares no exterior. Seu número atual é impreciso, porque muitas são secretas ou disfarçadas de instalações científicas, a estimativa de Chalmer Johnson é que sejam em torno de 700.

Johnson e Bacevich ressaltam que o colapso da URSS e, posteriormente, o 11 de setembro, abriram caminho para mais uma onda de expansão do poderio americano, com a instalação de bases no Oriente Médio, nos Bálcãs e na Ásia Central, anteriormente áreas que faziam parte do império soviético.

Tais bases variam muito em seus propósitos. As maiores são relíquias das guerras anteriores (Alemanha, Japão, Coréia do Sul), outras surgiram em meio aos conflitos contemporâneos em zonas de alta turbulência (Afeganistão, Iraque, Arábia Saudita, Kosovo) ou em áreas onde a influência americana é crescente e há interesses a proteger, principalmente oleodutos (Bulgária, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central). As bases na América Latina são citadas apenas de passagem e o único país do continente mencionado mais longamente é a Colômbia, por conta da política de combate às drogas.

Os autores destacam um ponto ainda pouco estudado: o quanto a política externa americana está sendo cada vez mais formulada pelo Pentágono. As figuras mais importantes são os generais que chefiam os comandos regionais das Forças Armadas – há um para cada continente. Bacevich e Johnson os chamam, ironicamente, de proconsuls e vice-reis, em homenagem aos impérios do passado. Meu orientador prefere gauleiters – os líderes do partido nazista nos territórios ocupados por Hitler.

Johnson levanta questões interessantes sobre o relacionamento das guarnições das bases com as populações vizinhas. O que acontece quando se coloca milhares de jovens entre 18 e 24 anos, com nenhum preparo para lidar com culturas estrangeiras, numa situação de poder, isenção jurídica das leis locais e desamparo psicológico por estar longe de casa? Ninguém precisa ser antropólogo para saber que se multiplicam os casos de alcoolismo, jogo, prostituição, violência sexual e até acidentes de trânsito. Não é bom negócio ter troço desses no quintal.

O mesmo autor também discute o novo perfil das Forças Armadas dos EUA: jovens pobres, negros, hispânicos e sulistas. Escolheram a carreira militar porque a opção era fritar hambúrgueres e na nova vida ao menos podem aprender habilidades técnicas, ganhar créditos para a universidade e quem sabe ver o mundo e conhecer pessoas interessantes (talvez tendo que matá-las depois). É um contraste com o “Exército de cidadãos” que lutou as guerras mundiais. Se parece mais com a tropa do Vietnã, onde leis de recrutamento injustas isentavam a classe média universitária em detrimento dos pobres.

Tanto Johnson quanto Bacevich chegam à conclusão que a atual cultura americana é muito mais individualista e consumista, pouco disposta a sacrifícios pessoais. Por isso, a população paga a outros para lutar em seu lugar, inclusive mercenários e tropas aliadas. Os dois autores escrevem com preocupação sobre o distanciamento entre os cidadãos e os militares profissionais. Em grandes potências do passado, como Roma e Alemanha, esse divórcio acabou por destruir as liberdades políticas e levou a governantes militaristas e autoritários, de César a Hitler.

5 Comentarios:

Blogger mariluca said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Fazia tempo que não passava por aqui :)

comentando só pra dizer oi mesmo, e avisar que estão devidamente linkados no "Nois de buzum".

Bjs
Mari

maio 11, 2006 12:41 AM  
Anonymous Anônimo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Acho que este post tem tudo a ver com o anterior - e que a questão dos hispânicos nos EUA ainda vai influenciar com mais intensidade as políticas interna e externa do país. Só não sei que forma isso vai tomar, e é aí que mora o perigo...

maio 11, 2006 5:58 AM  
Blogger Maurício Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, Mari.

Seja novamente bem-vinda. Vou acrescentar seu blog a nossa lista ao lado. Respondi ao seu srap, você viu?

Querida Nica,

com certeza há uma relação. Os heróis do exército americano cada vez mais se parecerão com Colin Powell (negro) ou Ricardo Sanchez (hispânico).

Impérios do passado também viram mudanças semelhantes. As Legiões Romanas dos últimos anos eram formadas por bárbaros, em geral alemães. Os otomanos usaram escravos como soldados, os famosos janízaros.

Em ambos os casos, os servos se tornaram os mestres.

Beijos

maio 12, 2006 7:04 PM  
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