segunda-feira, outubro 24, 2005

Medo, Desconfiança e Indiferença



A vitória do não no referendo do desarmamento foi avassaladora e atravessou todas as camadas sociais e regiões do país. Três sentimentos me parecem decisivos para esse resultado:

1 - Medo: o Brasil é inseguro e as pessoas acham que é melhor ter uma arma para se proteger, ou ao menos fazer com que os bandidos pensem nessa possibilidade antes de invadir uma casa.

2 - Desconfiança: o Estado não é capaz de garantir a segurança. Nessa perspectiva também não é possível confiar nos vizinhos ou na comunidade. O indívudo pode contar apenas consigo mesmo. Essa posição representa ainda o ceticismo quanto às razões do referendo ("O que eles [políticos] querem com a gente? O que estão aprontando?") e com certeza a frustração com o governo Lula influiu na vitória do não.

3 - Indiferença: Os dados sobre homicídios por armas de fogo foram bastante divulgados durante a campanha e uma boa parte da população sabe que a maioria ocorre por motivos fúteis em brigas entre amigos, conhecidos e parentes, acidentes com crianças etc. Mas essa não foi a questão do referendo. Sejamos francos: as pessoas não se importam com o que acontece com as outras, só com o que se passa em seu círculo íntimo. Daí vem um argumento que foi forte durante a campanha: "se os outros não sabem usar suas armas, problema deles, eu cuido da minha".

Poderia ser diferente? O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e nenhum sistema social como este se sustenta sem a indiferença como um de seus pilares.

Uma amiga cientista política, educada em grande parte na França, resumiu bem o que sinto nesta manhã de segunda: "de repente, eu tenho a impressão de que existe um fosso entre os valores com os quais me identifico e os da maioria dos brasileiros." Os valores e a cultura mudam com o tempo e talvez um dia o Brasil seja diferente. Não hoje, infelizmente.

10 Comentarios:

Anonymous Anônimo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

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outubro 24, 2005 10:42 AM  
Blogger Claudia said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

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outubro 24, 2005 11:39 AM  
Blogger Claudia said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Meu sentimento é de total impotência. Quando finalmente temos a chance de mudar algo, preferimos nos convencer de que não vale a pena mudar, porque "esse algo" por si só não seria suficiente para mudar o resto. Impera a cultura do medo. Parece que a Regina Duarte "venceu" finalmente. Salve a democracia (ou seria a ditadura da maioria?)!

outubro 24, 2005 11:42 AM  
Blogger BB said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Caro,

Eu entendo a tristeza. Mas tenho a impressao de que voce atribuiu a esse referendo um poder que ele nao tinha. Nao acho que a "cultura do medo" tenha vencido -- os cidadaos das grandes cidades convivem com ela ha algum tempo. O que aconteceu, na minha opiniao, foi uma completa desconfianca no poder publico para resolver a questao e contaminado tambem pela crise politica. Acabou sendo um referendo sobre a eficacia do poder publico, que a populacao identificou como inoperante. (Recomendo muito a leitura do Marcos Sa Correia no "nominimo" de hoje)

Acho que quando a populacao percebe uma alternativa, tende a votar de maneira a apoia-la -- a propria vitoria do Lula em 2002 foi isso. Mas essa alternativa do referendo nao ficou clara para a populacao em geral.

E Claudia, referendos e plebiscitos sao tradicionalmente instrumentos da tal "ditadura da maioria". Por isso Rousseau gostava tanto deles. A criacao de instituicoes mediadoras de representacao eh uma forma de mitigar os efeitos para a minoria, que tende sempre a perder com esses mecanismos (a Venezuela hoje eh um exemplo).

Agora eh trabalhar para implementar o Estatuto, nao?

Grande abraco.

outubro 24, 2005 12:00 PM  
Blogger Velvet said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

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outubro 24, 2005 2:01 PM  
Blogger Velvet said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Votei NÃO e não foi por medo ou desconfiança. Até porque não pretendo comprar uma arma para me defender. É papel do Estado me proteger. Esta é a regra, e eu acredito nela. A autotutela é excepcional e não pretendo que o país vire um faroeste. Nem a maioria dos brasileiros, creio eu...

Votei NÃO porque SIM não representa mudança alguma onde o comércio ilegal é responsável por uma boa parte das armas em circulação. Votei NÃO porque não vejo necessidade de se suprimir um direito que já é regulamentado (e restringido) aos cidadãos. Votei NÃO com total convicção, e estou satisfeita com o recado que os brasileiros deram neste domingo. Chega de culpar a sociedade pelos problemas que o Estado não resolve.

Abs

outubro 24, 2005 2:04 PM  
Anonymous Regina said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Ok...eles venceram...mas vamos nos preparar para os próximos, pois agora, esta mesma turma que saiu fortalecida vai fazer questão de que venham mais referendos, então é melhor irmos nos preparando com informações fidedignas e sábias sobre: aborto, pena de morte, casamento entre homossexuais, alteração da menoridade penal, etc.

Também estou com esta sensação de ET por ver que meus valores e princípios serem tão diferentes da maioria.

Um abraço e...MUITA PAZ...ao menos a Paz de consciência nós temos hoje.

outubro 24, 2005 3:33 PM  
Blogger el pupo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Nas longínquas aulas de ciência política, me lembro o breakthrough que foi quando aprendi que o voto, na maioria dos casos, não se explica somente em termos de utilidade (ou racionalidade instrumental). Daí a importância das campanhas de televisão nada informativas.

A campanha do SIM foi vergonhosa, além de ignorar lições básicas de Marketing 101: achar que artistas globais falando sobre qquer coisa convenceria o "povo" é exemplo de ultra-naïvité e menosprezo. Como disse a empregada de um amigo, "É muito fácil pra Maitê Proença dizer SIM. Ela não mora no Jardim Ângela."

A campanha do NÃO, muito pior, mais apelativa, de baixo nível e com gente mais mal-vestida que a do SIM, bateu na tecla certa: a identificação com o cara na rua, o estilo aqui-agora.

Eu nunca entendi esse conceito de militar pela "paz", talvez por entoar diariamente o mantra "homo hominis lupus". A paz não se é militada; é construída e defendida, tarefa difícil e custosa, que muita gente no País ainda não entendeu.

Pensar que meu voto foi igual ao do Jair Bolsonaro me enoja, mas, no jogo político, utopia tem limite. Como disse um amigo que militava na chapa oposta ao do pessoal que inventou o SdP na USP, "Não sou da paz; sou da luta!"

outubro 25, 2005 7:37 AM  
Anonymous nica said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Fico triste também, ainda mais porque, por estar longe, tenho aquele ponto de vista sociológico do observador externo. Aliás, o resultado do referendo foi notícia dos principais telejornais da Inglaterra e da Alemanha (que assisti por causa do meu curso, hehe).

outubro 25, 2005 2:05 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Car@s,

acho que a vitória do não foi um pouco pior do que a simples manutenção do status quo. Na linha do que a Regina apontou, acredito que o gênio saiu da garrafa e que a direita mais tacanha (Bolsonaro, Fleury etc) aprendeu que pode ganhar referendos e plebiscitos sobre temas controversos. Acho que teremos mais deles pela frente. Escreverei sobre o tema.

Abraços

outubro 25, 2005 4:52 PM  

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