sexta-feira, outubro 07, 2005

A Retórica das Armas



O cientista político Albert Hirschman identificou em “The Rhetoric of Reaction” (edição brasileira: “A Retórica da Intransigência”) três pontos comuns ao discurso conservador oposto às grandes mudanças políticas: ameaça (a reforma trará perigo); futilidade (não irá adiantar) e perversidade (terá o efeito contrário). Foram usados para contrariar medidas que hoje julgamos banais, como o voto feminino. A retórica dos defensores do “não” no desarmamento segue a mesma estrutura.

1 – Ameaça: Proibir a venda de armas deixará o cidadão desprotegido diante dos bandidos. Eliminar o direito de portar armas é o primeiro passo na extinção de outros direitos.

Arma não protege ninguém. Dados dos sociólogos Gláucio Soares (Iuperj), Ignacio Cano (UERJ) e Julita Lemgruber (UCAM), especialistas em segurança pública: “Em apenas 2% dos assaltos a residências que possuíam armas elas foram usadas contra os assaltantes. Pior do que isso: cada vez que uma arma de fogo caseira é utilizada contra um invasor, outras 22 matam ou vitimam, intencional ou acidentalmente, os moradores ou visitantes legítimos da casa. Compramos armas pensando em defender a casa contra assaltantes, mas é muito mais provável que ela seja usada contra alguém da própria casa.”

Quanto ao segundo ponto, é argumento de proprietário de escravos para se opôr à Abolição (“Querem mexer no meu direito de propriedade! O próximo passo será o comunismo!”). Na maioria das democracias desenvolvidas, a posse de armas é muito difícil ou impossível – pensem no Japão e na Inglaterra. Direitos são vida, liberdade, educação, saúde. Possuir armas é decisão política que varia conforme as sociedades.

2 – Futilidade: a lei não será cumprida, quem tiver armas não irá se desafazer delas.

Quer dizer que é melhor nem tentar e ficar reclamando da vida? Em 2004 começou uma campanha voluntária para entrega de armas – em um ano, mais de 400 mil foram entregues à polícia e ao Exército. Quando ao incentivo se somar a força da lei, a tendência é que a cooperação aumente. Mesmo pessoas que não gostem do Estatuto preferirão obedecer a ficar ilegais, até pela pressão de mães, esposas, filhos etc.


3- Perversidade: proibir a venda de armas apenas aumentará o comércio clandestino e o suborno a policiais e militares.

Sim, existe essa possibilidade. Mas o tráfico de armas e a corrupção das autoridades já são tão gigantescos que é difícil acreditar que as perdas superem os ganhos advindos da probição de venda de armas. Luiz Garcia, em seu artigo desta sexta, coloca a questão essencial:

O resultado da consulta popular não vai reduzir os arsenais de AK-47s nos redutos do tráfico de drogas. Esse é outro problema, gravíssimo, e para o qual não se conhece solução duradoura (...) Mas o plebiscito servirá para tirar a arma de nossas casas e das casas de nossos vizinhos. Para impedir que uma briga conjugal termine em morte; para não deixar que nossos filhos descubram o brinquedo novo, com conseqüências que estão todos os dias no jornal; e para impedir que divergências sobre questões de trânsito e de condomínio acabem em sangue. Como toda hora acontece.

6 Comentarios:

Blogger Leticia said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Super-obrigada pelo texto, Maurício. Me deu mais subsídios para pensar, pois confesso que uma pergunta que está me martelando é sobre a clandestinidade se tornando mais ainda status-quo.

beijos!

outubro 07, 2005 1:55 PM  
Anonymous Leila said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Moro nos EUA, onde é facílimo comprar armas. Uma amiga minha tem um filho de 9 anos, e sempre que ele é convidado pela primeira vez para visitar algum amiguinho, ela pergunta à mãe se a família tem arma em casa. Se tiver, ela não deixa o garoto ir.

Não há dúvida de que ter armas aumenta a probabilidade de que ela será usada por um motivo fútil, ou disparada acidentalmente.

outubro 07, 2005 3:01 PM  
Blogger Joana said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Mauricio,
Agora estou mesmo convencida que tenho de ler Hirschman
beijos

outubro 07, 2005 3:04 PM  
Anonymous Regina said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Mauricio,

Ainda esteva em dúvida, mas já inclinada pelo SIM. Com a leitura do teu texto, acabei por me decidir. Meu marido é policial, temos arma em casa, já tivemos que socorrer, sem conseguir salvar, o filho de um colega dele que usou a arma do pai para se suicidar. Sei que se a pessoa busca esta "saída", acaba encontrando um meio de realizar o intento, mas se não houvesse a arma, tudo se tornaria mais difícil. Vou tomar a liberdade de publicar teu texto no meu blog, como já fiz com o do Mangabeira...sou coladora compulsiva, professor, pode me pôr de castigo(risos)...Abraço!

outubro 07, 2005 7:26 PM  
Blogger Claudia said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Sabedoria pop que tocou inda agorinha na TV e lembrei de vocês:
"it's hard to be a man when there's a gun in your hands".
Beijão!

outubro 09, 2005 11:16 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Caras,

o fato de que as mulheres são muito mais favoráveis ao desarmamento do que os homens (ao menos no meu círculo de amizades) me convence de duas coisas:

1- Vocês são a mais importante força civilizatória do planeta.

2- A construção da masculinidade no Brasil está ligada a alguns esteriótipos bastante perigosos, incluindo o uso de armas.

Também conheço vários casos de "arma em casa, perigo constante". Ainda não presenciei uma só situação em que elas tivessem funcionado para autodefesa.

Bjs

outubro 10, 2005 2:27 PM  

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