segunda-feira, outubro 03, 2005

Os Outros


Entre as muitas conversas que tive sobre desarmamento nos últimos dias, a que mais me surpreendeu foi de um amigo que participou de uma dinâmica de motivação numa grande empresa. No jogo, ele e os colegas estavam em duas espaçonaves que chegavam à Lua. Precisavam sair delas para fazer uma missão e tinham que escolher as prioridades numa lista de 15 itens, que incluía lanterna, comida, água, oxigênio, revólver etc.

Meu amigo fez sua lista e deixou a arma em último lugar. Para sua surpresa, ele foi um dos poucos que agiram assim. Quase todos escolheram o revólver como prioridade. "Mas o que deu em vocês? Estamos na Lua!", ele perguntou. "É, mas não dá para confiar nos outros. Pode ser que a outra tripulação queira roubar nossa comida e água."

Sem entrar no mérito de lançar a campanha do desarmamento na Lua (agora que os chineses e americanos querem ir para lá, pode até ser útil) o episódio é um redução ao absurdo do argumento da "cultura do medo" - a de que é necessário portar armas para se defender num mundo hostil. Sem dúvida o Brasil é um país inseguro, com polícias corruptas, violentas e ineficientes. Suponho que na Lua seja um pouco melhor, mas nunca se sabe.

Em outro dos debates que participei, no Orkut, um rapaz disse que deviam era desarmar "os morros, aquela raça". As classes perigosas continuam a ter a mesma cor do que no Império. Daí para os editoriais do Globo dizendo que é hora de "perder o medo" de discutir remoção de favelas, é menos do que um passo.

O ponto curioso é que o debate sobre combate ao crime organizado tomou conta da campanha do desarmamento, embora 90% dos homicídios sejam cometidos pelos cidadãos comuns, os tais que morremos de medo dos bandidos. Nessa disputa de "nós x eles" nós somos muito mais perigosos do que eles. Mas esse é um pensamento muito subversivo. Melhor continuar com o mito da mortandade provocada só por ladrões, traficantes, assassinos. De preferência jovens, negros e favelados. Os Outros. Sartre já ensinava que o Inferno são eles.

10 Comentarios:

Anonymous Anônimo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Hey, interesting post! I've bookmarked your blog and will be reading it regularly.

By the way, did you hear today that the stalemate that has emerged from the German election will have the effect of slowing up economic reform and this is seen by most commentators as an utter disaster? Terrible!

I have a classic car parts web site which you or your readers may find interesting. It pretty much covers classic car parts related stuff.

Keep up the nice work!

Jimmy

outubro 03, 2005 1:26 PM  
Blogger Leticia said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Mas Maurício, a questão não deveria ser outra? Proibir ou não proibir o comércio de armas só não vai fazer a coisa descambar de vez para o mercado clandestino?

beijos

outubro 03, 2005 6:25 PM  
Blogger Claudia said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Maurício,

Acho que a sociedade brasileira (principalmente a classe média) foge da responsabilidade por seus próprios atos. Vai negar sempre que existem bandidos no asfalto. Você acha mesmo que ela é isenta o suficiente para decidir tal questão? As pessoas com quem converso estão decidindo pela emoção. Os debates estão vazios. E eu continuo perdida...

outubro 03, 2005 11:23 PM  
Blogger Thiago Scot said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Olá MAurício,
Sou leitor assíduo do seu blog e concordo plenamente com você.
E ainda temos que aguentar a VEJA com seu jornalismo de terceira fazendo uma reportagem ridícula apoiando o NÃO no referendo...Escrevi no meu blog sobre isso, se quiser dá uma olhada lá.
Abraço

outubro 04, 2005 12:13 AM  
Blogger Bruno Lopes said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Maurício, concordo com sua observação de que os brasileiros estão cada vez mais estúpidos, e que a cultura do medo incentiva as pessoas a guardarem um arma em casa.

Mas estamos falando de um referendo que proíbe o comércio de armas. Esses mesmos débeis mentais vão continuar comprando armas e munição, mas agora de traficantes de armas e policiais corruptos. Esse tipo de comércio de armas certamente não vai ser afetado pelo que se decidirá no referendo, e até sairá fortalecido...

outubro 04, 2005 1:11 AM  
Anonymous Su said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Oi Maurício
Só agora vi o endereço do teu blog laá no 'blogleft' :/
Belo post! É incrível como continue se ignorando esta estatísitca: de que os revólveres domésticos matam mais as pessoas da casa do que possíveis invasores.
abraço,
Su

outubro 04, 2005 9:36 AM  
Anonymous nica said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Concordo com Lelê: meu medo é em breve termos traficantes de drogas fornecendo também armas para aqueles que morrem de medo dos "negros favelados" que praticam todos os crimes... Será que só proibir a venda resolve alguma coisa?

outubro 04, 2005 1:00 PM  
Blogger BB said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

"Quase dois terços das armas apreendidas com criminosos no Rio de Janeiro nos últimos seis anos estão ou estiveram nas mãos de pessoas físicas sem antecedentes criminais. É o que mostram dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado, analisados pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) e pelo Viva Rio. Os números indicam que, de 86 mil armas apreendidas em ocorrências criminosas desde 1999 e registradas nas 79 Delegacias Legais do estado, 61% pertencem ou pertenceram aos chamados cidadãos de bem, sem envolvimento com o crime."

Isso estah no Globo de hoje e reproduzido no site do Pedro Doria. Se esses numeros estiverem certos, entao tenho que concordar com o Mauricio -- realmente o voto pelo SIM farah alguma diferenca, mesmo que nao acabe com a violencia.

Grande abraco.

outubro 04, 2005 3:26 PM  
Blogger BB said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Apesar disso, ainda nao responde a pergunta que eu tinha: dos crimes "futeis" cometidos, qual eh o percentual de armas ilegais?

O numero do comentario acima refere-se apenas as armas apreendidas pela Policia -- o que nao necessariamente representa o total de armas em circulacao.

Acho que essa eh uma questao realmente dificil. O voto fica complicado: vota-se por conviccao ou vota-se estrategicamente, visando algum resultado? O grande problema eh que nao temos ideia de que a relacao causal entre a lei e o objetivo seja verdadeira.

Na verdade, se a lei se tornasse apenas inocua, nao seria um grande problema adota-la. O que me preocupa eh se ela tornarah a situacao ainda pior.

Grande abraco.

outubro 04, 2005 3:33 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Car@s,

estou acompanhando o debate sobre o desarmamento pelos jornais, pela TV e pelo Orkut e de modo geral estou gostando do que vejo.

Claro que ele é marcado por medo, emoções fortes e ocasionais radicalismos (quando acho que a Veja não consegue se rebaixar mais, ela me surpreende), mas acho que provoca boas discussões. As pessoas estão refletindo sobre um problema sério e pensando soluções.

Concordo que o ponto frágil do desarmamento é a possibilidade de estimular o mercado clandestino. Mas acredito que as perdas ocasionais nessa área serão bem menores do que os ganhos quando as armas forem banidas.

Continuarei a escrever sobre o tema pelos próximos dias.

Abraços

outubro 05, 2005 11:15 AM  

Postar um comentário

<< Home

Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons License. Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com