domingo, outubro 02, 2005

Atirando em Cachorros



Os filmes sobre Ruanda têm lotado os cinemas do festival e "Shooting Dogs" (ainda sem título em português) não é exceção. Das três produções que vi recentemente sobre o genocídio contra os tutsis, esta é sem dúvida a mais sombria, perturbadora e provocadora.

Tal como em "Hotel Ruanda" e "Apertando a Mão do Diabo", o ponto de vista adotado é o dos heróis, pessoas extraordinárias que tentam fazer algo para lidar com a tragédia. Inspirado em fatos reais, "Shooting Dogs" retrata a luta de um padre e um professor britânicos, que tocam uma escola técnica transformada em campo de refugiados e que abriga também uma pequena guarnição belga da ONU.

Em essência, é uma situação semelhante a de Hotel Ruanda, só que mais tensa. O padre e o professor não têm os contatos e a influência política do gerente do hotel. O capitão belga que comanda as tropas de paz, embora queira ajudar, não está disposto a se afastar um mílimetro das suas ordens, que acabam forçando as tropas a abandonar a escola, deixando-a à mercê das milícias hutus. Os dois britânicos se vêem num dilema: fugir com os europeus ou ficar com seus alunos e paroquianos, enfrentando a morte certa?

O filme foi produzido pela BBC, com roteiro de um ex-correspondente em Ruanda. Não por acaso, uma das melhores cenas é a repórter da emissora fazendo mea culpa ao comparar sua experiência na África com a que viveu na Bósnia - no genocídio ocorrido na Europa, ela se envolvera emocionalmente. Em Ruanda, sequer chorou. Eram negros e pobres que morriam, não brancos europeus. Para um brasileiro, esse distanciamento não existe. Kigali, a capital do país, se parece muito com a periferia de qualquer grande cidade do Brasil.

Mais de 2 mil pessoas foram mortas na escola e o filme foi quase todo rodado com sobreviventes do genocídio, cujas histórias são narradas brevemente nos créditos finais. Os bastidores foram narrados numa matéria da BBC.

O título do filme se refere a uma cena onde os soldados da força de paz decidem disparar nos cachorros que devoravam os cadáveres dos mortos no genocídio. O padre replica com ironia: "Eles atiraram em vocês? Pensei que o mandato da ONU só autorizasse o uso da força em auto-defesa."

2 Comentarios:

Anonymous Ock-Tock said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

O filme parece ser forte, tenso, como todo bom filme que relata um desastre ou uma guerra deve ser - a pedida parece excelente, principalmente se pensarmos que não foi Hollywood, com sua forma pasteurizada de se fazer filmes, que produziu esse. Anotada a dica!

outubro 03, 2005 8:22 AM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, Ock.

Gostei bastante dos três filmes, mas o Shooting Dogs sem dúvida é o que mais foge às convenções hollywoodianas.

Abraços

outubro 05, 2005 11:08 AM  

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