segunda-feira, abril 04, 2005

Terrorismo na Baixada

Policiais pertencentes a grupos de extermínio vagam durante duas horas na Baixada Fluminense e assassinam ao acaso mais 30 pessoas em represália às ações do novo coronel da PM em Duque de Caxias, que vem perseguindo a banda podre em seu batalhão. O mesmo grupo havia jogado uma cabeça decepada no pátio do quartel, alguns dias antes.

Ataques aleatórios a inocentes, com o objetivo de criar um clima de pânico que facilite a obtenção de uma meta qualquer é quase a definição clássica de um ato terrorista. Não vejo outra classificação para o que houve na Baixada.

No sábado assisti no festival É Tudo Verdade a um documentário sobre os atentados de Madri. Conversando com minha professora de espanhol, ela me contou que a Espanha mudou muito após os ataques, com medo e traumas generalizados. Contudo, o que mais me impressionou no filme foi a capacidade da população em reagir e se organizar no repúdio à violência e à manipulação do governo, em particular através das novas tecnologias de informação, como o celular e o e-mail.

No Brasil, é comum escutarmos queixas sobre a falta de politização dos nossos compatriotas. Não acho que seja o caso. Percebo que as pessoas em geral estão razoavelmente informadas e quase sempre se interessam em saber mais. Nossa grande dificuldade é a mobilização. A indignação e as preocupações sociais tendem a ficar restritas ao pequeno círculo dos amigos e parentes. Articular-se com o "mundo da rua" é mais complicado. Há uma grande desconfiança das instituições do governo, dos partidos, dos sindicatos, o que se traduz num comportamento apático ou cínico ("Não adianta, nada vai mudar, vou cuidar do meu"),

As enormes desigualdades de nosso país são fundamentais para esse quadro. Asfalto e favela, pobres e classe média/elite percebem-se mais como inimigos do que como cidadãos que compartilham uma sociedade. A imprensa tem coberto com destaque a chacina, mas praticamente não ouvi comentários sobre ela em várias rodas de conversa (incluindo de acadêmicos e cientistas sociais) por onde passei no fim de semana.

De certo modo, espera-se que na Baixada a violência seja a norma. Ela nos choca apenas quando o tamanho do massacre ultrapassa o habitual, ou quando o conflito extrapola para lugares simbólicos ou da classe média, como a Igreja da Candelária ou o ônibus 174 no Jardim Botânico. A morte de uma moça de nossa classe social, como Gabriela ou de uma freira americana, provoca muito mais repercussão do que a chacina de seis, sete, oito rapazes pobres e negros.

Na quarta-feira irei a Brasília falar a um grupo de jovens de várias partes do país, num evento da recém-criada secretaria de juventude do governo federal. Não sei se o programa permitirá, mas penso em levar essas idéias para o debate.

3 Comentarios:

Blogger Glauco Paiva said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

O terror também mora aqui, companheiro. Isso é um recado de pretensa onipotência de quem tem as armas, mas não tem preparo, e por isso julga ser Deus. E pra piorar, como o papa está morto, quem é que vai dizer o contrário?

abril 05, 2005 8:22 PM  
Blogger Velvet said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Revoltante o que aconteceu na Baixada. É capaz de deflagrar uma crise institucional em qualquer lugar do planeta, mas parece que a morte do Papa nublou a gravidade da chacina. Ou talvez esteja reinando aquele famoso sentimento-clichê de impotência que faz com que a violência estatal banalizada se torne parte do cotidiano de todos.

"Não tenho medo da Baixada", diz uma comunidade do orkut, agora em português. Eu não tenho mesmo. Tenho medo de para onde estamos caminhando.

Abs

abril 05, 2005 11:06 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Car@s,

No Globo, Merval e Dapieve também falam da chacina como terrorismo. Mas a reação da sociedade está muito lenta. Somente agora começou a circular um manifesto e parece que se tentará organizar algo.

Abraços,
Maurício

abril 08, 2005 2:42 PM  

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