sábado, março 19, 2005

Entre Piscadelas e Pontos Criticos

Malcolm Gladwell eh uma figura. Uma mistura de historiador, jornalista e cientista social, Gladwell parece ser a referencia basica atual da cultura pop. Seus artigos na revista New Yorker sao lidos e comentados com fervor, como se tudo que dissesse tivesse consquencias imediatas para toda a sociedade norte-americana.

E de certa maneira, isto pode ateh ser verdade. Ha algum tempo Gladwell nao sai das listas dos mais vendidos do NYT de nao-ficcao, primeiro com o seu livro "The Tipping Point" e, mais recentemente, com "Blink: The Power of Thinking Without Thinking". A primeira vista parece mais uma aposta dos "auto-ajuda", mas Gladwell eh um daqueles popularizadores da ciencia que adoramos ler e que traduzem teorias complexas e, geralmente, matematizadas da Ciencia Politica e da Sociologia para um ambiente popular. Ideias que cientistas sociais em geral tendem a admitir como usadas, parecem ganhar novo sentido no trabalho de Gladwell, que, de alguma maneira, traz algumas questoes importantes a tona e forca a sociedade a discuti-las.

"The Tipping Point" (livro escrito ha tres anos atras) parece ser um tentativa de popularizacao do trabalho do economista Thomas Schelling em "Micromotives and Macrobehavior" de 1978. Nele, Gladwell menciona que algumas mudancas na sociedade tendem a se parecer com um modelo de "ponto critico": tensoes vao se acumulando pouco a pouco ateh que atingem um "ponto critico" e, apenas um pequeno acontecimento parece desencadear uma mudanca estrutural profunda. Um exemplo disso eh o caso das revolucoes do leste europeu em 1989, que ninguem tinha ideia de que fossem possiveis ateh que acontecessem. O maior problema para os cientistas sociais eh que este tipo de modelo serve muito pouco para prever tendencias; funciona entretanto como um bom mecanismo de explicacao pos-facto.

Em "Blink", Gladwell refere-se aqueles segundos de reacao que temos a qualquer acontecimento. Esses primeiros segundos sao importantissimos, diz ele, porque sao eles que conduzem nosso processo de interpretacao "racional" da realidade. Eles sao determinantes dos "bias" que temos, nossos preconceitos e nossas idiossincrasias inconfessaveis. Para ele, quase tudo eh decidido na "piscadela", naquele precioso momento de reacao. Como nos guiamos por esteriotipos e papeis sociais, tentar eliminar nossos "bias" da piscadela parece ser impossivel, mas segundo Gladwell eh fundamental que uma sociedade tente discuti-los. Um exemplo de como isso funciona aplica-se aos casos de racismo, por exemplo, em que a primeira impressao (dada no caso pela cor da pele) pode tingir completamente nossa concepcao da realidade. Possiveis solucoes para dimimuir nossos julgamentos imediatos poderiam surgir de pequenas providencias: entrevistas de emprego sendo conduzidas sem qualquer contato fisico, o uso obrigatorio de uniformes em colegios ou ateh mesmo nao permitir que o juri veja o reu durante o julgamento.

Ideias impraticaveis ou provocacoes culturais? Pelo menos eh uma boa leitura.

1 Comentarios:

Blogger Velvet said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Nunca li. Mas que existe uma forte tendência de alguns garantistas penais a que o julgamento seja sempre "no escuro", é um fato. Diz-se que o que aocntece é que os preconceitos incutidos nos jurados fazem com que muitas vezes os julgados de casos semelhantes conflitem entre si, prejudicando o direito à liberdade de todos nós, por características pessoais do réu. Embora eu concorde com muitas das premissas dessa tese, não acredito em julgamento pelo júri de um fato, sem se atentar para a pessoa do réu. Não que se vá julgar o agente pelo que ele é ou seu estilo de vida - mas muitas vezes "a piscadela" mostra muito mais do que uma simples narrativa fria de fatos...

Bjos

março 19, 2005 3:55 PM  

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