quarta-feira, março 23, 2005

Memórias do Desenvolvimento


Furtado com o presidente Goulart Posted by Hello

Encontrei na biblioteca do IUPERJ a obra autobiográfica de Celso Furtado. Na edição estão incluídos vários livros e textos, os mais interessantes são "A Fantasia Organizada" e "A Fantasia Desfeita".

Furtado foi um dos nomes mais expressivos da República de 1946, a geração que enfrentou o desafio do desenvolvimento econômico e da expansão da democracia, no díficil contexto do ínicio da Guerra Fria e da crise do populismo. O economista foi também um intelectual de primeiríssima linha que encarou o desafio de pensar nosso país de maneira autônoma e original.

"A Fantasia Organizada", cobre o período de 1945 a 1955 e é o melhor das memórias. É quase um romance de formação, a saga de um rapaz do interior da Paraíba que faz sua estréia no mundo ao servir como oficial da FEB na Segunda Guerra Mundial. Suas descrições da Itália e da França devastadas pelo conflito são muito boas – a edição inclui o belo livro de contos que Furtado escreveu sobre sua experiência na guerra, com trechos dignos de um Band of Brothers à brasileira.

Depois da guerra, o doutorado em Paris e as dores do parto da nova Europa - análise política e social das mais argutas que li. A volta para o Brasil conservador do governo Dutra é um anti-climax, e Furtado aproveitou uma oportunidade para se juntar a um recém-criado (e meio desacreditado) órgão da ONU, a Comissão Econômica para a América Latina. Ninguém levava muita fé na CEPAL e a narrativa de como a instituição se transforma no principal centro de políticas do desenvolvimento do mundo é primorosa, certamente usarei muitas dessas informações com meus alunos. Claro que a figura em destaque é a do economista argentino Raul Prebisch, que entrou na comissão quase por acaso.

O segundo livro, "A Fantasia Desfeita", é menos interessante, apesar de cobrir o período em que Furtado foi assessor de três presidentes - JK, Jânio e João Goulart - um pouco no BNDE, muito na SUDENE, que ele vê como sua principal obra. Me surpreende a boa relação que Furtado manteve com Jânio Quadros, a quem se refere com admiração, mas senti falta de uma análise mais detalhada dos conflitos que levaram ao golpe de 1964, que encerram o livro.

Ler Furtado neste início de século XXI é constatar que o debate sobre desenvolvimento se empobreceu muito. Os argumentos do governo dos EUA e das instituições de crédito internacional não mudaram muito em 50 anos, o que se alterou foi a capacidade do Estado em apresentar propostas e tocar projetos. Mas não acho que seja impossível a retomada dessas discussões, em particular pela via da integração da América do Sul, talvez o campo que mais avançou recentemente.

2 Comentarios:

Blogger BB said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Carissimo,

Concordo plenamente: a discussao sobre desenvolvimento ficou estagnada no Brasil. Sempre tivemos alguns dos maiores pensadores do assunto: nao soh o Furtado, mas o FHC (eu sei a ironia!!), o Milton Santos, o Josue de Castro, entre outros. Ateh hoje existe um respeito grande pelo pensamento de desenvolvimento genuinamente brasileiro. Eh uma pena que estejamos tao "sintonizados" com as agencias de financiamento internacionais (!).

Mas com um governo supostamente de esquerda que aceita sem pestanejar as recomendacoes do FMI, a consequencia eh clara: pensamento sobre desenvolvimento no Brasil jah deixou de dar as caras no poder. Infelizmente, Bob Fields venceu essa guerra.

Nota separada: voce conhece o livro do Ricardo Bielschowsky, "Pensamento Economico Brasileiro"? Se nao conhece, corre ateh a biblioteca e pega. Excelente. Talvez um dos livros que mais me fizeram aprender sobre economia e desenvolvimento no Brasil.

março 23, 2005 7:42 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, meu caro.

Repare que Castro e Santos também são nordestinos. As tensões da região realmente levam o cara a pensar. Quanto ao FHC, acho que ele foi coerente com o que escreveu sobre desenvolvimento desde os anos 50: a fraqueza política dos industriais brasileiros, a elite que se comporta como sócia minoritária do capital externo... O que ninguém esperava é que os tucanos fossem implantar esse programa.

Conheço e adoro o livro do Ricardo. É um dos melhores que li na área. Vale também checar o "Dependent Development", do Peter Evans.

março 25, 2005 4:27 PM  

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