Domingo, Janeiro 15, 2006

Nabuco e Machado de Assis


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Nestes dias estive mergulhado nos Diários de Joaquim Nabuco - preciosidade que permaneceu no arquivo familiar por 100 anos e foi publicada pela primeira vez há poucos meses. A cereja do bolo foi um volume com sua correspondência com Machado de Assis. Pelos olhos dos dois, acompanhamos um bom pedaço da história do Brasil no fim do século XIX e início do século XX.

Nabuco foi amigo de Machado de Assis desde a adolescência, quando o escritou elogiou alguns poemas de circunstância do jovem intelectual. A amizade continuou por toda a vida, embora só tenha se aprofundado na velhice de ambos. As cartas são trocas de idéias e afetos por dois cavalheiros. O assunto principal é a Academia Brasileira de Letras, da qual ambos foram fundadores. Machado, normalmente reservado, se revela o mais expansivo na correspondência. É especialmente bonito e triste sua busca por consolo junto aos amigos, após a morte de sua amada esposa Carolina. A ironia e o ceticismo do autor de "Dom Casmurro" dão lugar a uma ternura comovente, que em geral não associamos a Machado.

Os diários de Nabuco começam na década de 1870, quando é um jovem em sua primeira viagem à Europa. Filho de um dos políticos mais importantes do Império, logo está na carreira diplomática, servindo nos EUA. Não parece ter gostado muito do país, embora reconhecesse que precisava conhecê-lo melhor.

Na década de 1880 Nabuco abandonou a diplomacia para se dedicar à política, tornando-se um dos líderes da campanha pela abolição dos escravos. Infelizmente, os Diários são lacônicos nesse período turbulento, quando seu autor estava ocupado demais com a causa mais nobre da época.

Nabuco era monarquista e caiu no ostracismo com a proclamação da República. Mas foram ótimos anos para sua obra literária, quase toda escrita nesse período. Tempos de mudanças em sua vida pessoal: casamento, filhos e uma quase ruína financeira por especulações mal-sucedidas na bolsa. Nos Diários, destaca-se sua crítica ferrenha ao novo regime, em particular a Floriano Peixoto. Sua descrição da vida no Rio de Janeiro durante a Revolta da Armada é de arrepiar.

Mas a República acaba por fazer as pazes com Nabuco, quando os presidentes civis o convidam a voltar à diplomacia, chefiando uma missão de disputa de fronteiras com a Guiana Inglesa (que Nabuco perdeu, mas porque o rei da Itália, que arbitrou a questão, nos passou a perna) e sendo o primeiro embaixador do Brasil nos EUA.

Para um professor de política externa brasileira, esse é o trecho mais interessante do Diário - traz revelações que aumentam nosso conhecimento de como o Brasil buscou uma "aliança não-escrita" com os Estados Unidos. Nabuco mostra sua preocupação em se aproximar de Washington para criar uma força que contrabalanceasse o imperialismo europeu, então em seu auge - a Venezuela chegou a ser bombardeada por se recusar a pagar sua dívida externa. Infelizmente, a opinião de Nabuco sobre a América do Sul era terrível, com todos os preconceitos que os monarquistas do século XIX tinham das repúblicas vizinhas.

Embora Nabuco tenha sido muito importante para a ação diplomática conduzida pelo barão do Rio Branco, me surpreendeu saber que os dois não se davam muito bem. Nabuco se queixa de que o barão põe o poder acima de tudo e que sua amizade foi destruída quando ele se tornou ministro das relações exteriores. Outra surpresa é ver que apesar do célebre cosmopolitismo do autor dos Diários (que chegou a ser considerado esnobe por alguns contemporâneos) reclama da futilidade da vida social diplomática e até da comida congelada que os americanos adoram. E, sobretudo, tem saudades do Brasil: "As idéias devem ter asas, mas o coração não as pode ter."

Grande Nabuco.

4 Comentarios:

Blogger jd said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Meu caro,

Estamos sintonizados. Estava realmente lendo o artigo sobre a relação Nabuco-Barão no livro organizado pelo Cardim "Rio Branco" em 2002, pelo centenário da posse do Barão, e ele menciona a correspondência entre o Nabuco e o Oliveira Lima reclamando que o Barão praticamente o ignora em Washington e não o escreve sobre suas 'diretrizes'. Em outro trecho Oliveira Lima diz: O maior defeito de Nabuco era a vaidade, de seu físico e seu espírito. Ela o fazia egoísta e o levava à ingratidão. Rio Branco não era menos egoista, e tinha muito menos coração que Nabuco, sendo mesmo desapiedado. Da sua alma não jorrava o leite da natureza humana. Era porém mais agradecido e mais serviçal do que Nabuco, por interesse, para provocar favores que ele sabia recompensar a custa do Tesouro."

Isso está em outro artigo excelente do Paulo Roberto de Almeida que trata das trajetórias divergentes do autor de D.João VI no Brasil e do autor das Efemérides Brasileiras.

Janeiro 15, 2006 6:27 PM  
Anonymous Anônimo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Caros,

qual é o artigo do P.R.A.?

Abraço,
Renato Feltrin

Janeiro 15, 2006 9:46 PM  
Blogger jd said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

ALMEIDA, Paulo Roberto. “O Barão do Rio Branco e Oliveira Lima – Vidas paralelas, Itinerários divergentes” In.: CARDIM, Carlos Henrique & ALMINO, João. (Org.) Rio Branco – A América do Sul e a modernização do Brasil. Brasília: MRE, 2002.j

Janeiro 16, 2006 5:01 AM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Grande JD,

um estudo que ainda preciso fazer é sobre o modo divergente pelo qual Oliveira Lima, Nabuco e Rio Branco encaravam a América do Sul e a relação com os EUA.

Nos diários e nas cartas sobram reclamações do Nabuco ao Rio Branco e ao Oliveira Lima. Este último, coitado, é chamado de "obeso complexado e deprimido" para baixo.

Muita coisa é simplesmente fofoca de diplomata, ver quem vai servir nos melhores postos. Nabuco achava que Rio Branco cobiçava seu lugar de representante do Brasil em Londres.

Abraços

Janeiro 16, 2006 10:48 AM  

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