terça-feira, setembro 13, 2005

O Homem Deles em Washington


Semanas atrás descobri por acaso um sebo que recebeu parte da biblioteca de um ex-chanceler brasileiro. Isso significa bons livros sobre relações internacionais, incluindo obras importadas, a um preço acessível. Comprei “In Confidence”, as memórias de Anatoly Dobrynin. O autor é um diplomata soviético que serviu como embaixador de seu país junto aos EUA de 1962 a 1986.

A longevidade num cargo tão importante é raríssima e o motivo principal para ela foi a relação de confiança que Dobrynin construiu com os presidentes americanos, de Kennedy a Reagan, atuando com freqüência como um “canal confidencial” que levava mensagens diretamente da Casa Branca ao Kremlin, ajudando a diminuir as tensões mesmo nos momentos de crise mais aguda.

Para quem gosta da história da Guerra Fria, “In Confidence” é um banquete que serve como pratos principais os relatos dos bastidores da crise dos mísseis cubanos, das disputas por Belim, das cúpulas EUA-URSS, das negociações para o controle de armamentos, dos atoleiros dos americanos no Vietnã e dos soviéticos no Afeganistão e os conflitos domésticos como o Watergate e as reformas de Gorbachev.

O fio condutor das memórias de Dobrynin é a ascensão e queda da détente, o relaxamento de tensões entre EUA e URSS nos anos 70, que teve o apogeu no governo Nixon. Uma tarefa diplomática difícil e fascinante: como regular a convivência de duas superpotências hostis, com interesses espalhados por todo o planeta?

No relato de Dobrynin, alguns presidentes e diplomatas aparecem como grandes líderes (Kennedy, Nixon, Kissinger e em certa medida Brezhnev e Gromyko), outros como fiascos (Kruschev, Ford, Carter, Gorbachev). Reagan é um caso à parte e parece ser o político que mais intrigou o embaixador, confundido entre sua retórica maniqueísta e suas espantosas habilidades de negociação e articulação. Dobrynin é um analista de primeira categoria. Aprendi muito sobre as disputas dentro do Kremlin e sobre a política externa da URSS, inclusive em regiões como o Oriente Médio e a Ásia Central.

O livro foi lançado em meados dos anos 90. À luz do mundo pós-11 de setembro, é perturbador ver as primeiras aparições dos políticos que hoje têm os cargos de liderança no governo Bush. Eles surgem em cena há 30 anos, como opositores da détente e dos acordos de desarmamento e defensores de uma “guerra contra o comunismo” que em tudo prenuncia a atual “guerra contra o terror”.

4 Comentarios:

Blogger BB said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Caro,

Se nao me engano o jovem Rumsfeld foi bastante importante no governo Nixon, nao?

Grande abraco.

setembro 13, 2005 11:43 AM  
Blogger Patricia said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

nao posso fazer nada se alguns professores nao sabem motivar a turma, daniel...
sinta-se privilegiado por nao ser um deles, ser frenético.
hehe.
beijo

setembro 13, 2005 12:02 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, BB.

Pelo que me lembro o Rumsfeld entra em cena no governo Reagan, inclusive vendendo armas ao Saddam.

Mas a turma dos neocons, como o Richard Perle, aparece já no governo Nixon. Ironicamente, na oposição democrata, como assessores do senador Henry "Scoop" Jackson, o arqui-inimigo da detente e dos acordos de desarmamento.

Abraços

setembro 14, 2005 4:51 PM  
Blogger BB said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Caro,

Descobri que o Rumsfeld foi Secretario de Defesa do governo Ford! (Alias, ele foi o mais jovem secretario de defesa dos EUA).

Grande abraco.

setembro 15, 2005 8:53 AM  

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