quinta-feira, setembro 08, 2005

Índia: uma civilização ferida?


Nas últimas semanas li bastante sobre China e Índia, em função das aulas que estou dando no Curso Clio. A Índia me parece mais complexa.A elite política chinesa quer modernizar o país e manter seu controle sobre a população: são objetivos fáceis de se compreender e não tão diferentes daqueles buscados, por exemplo, pela ditadura militar brasileira

É claro que os líderes indianos querem o crescimento da economia, mas não sei se “modernização” é o termo adequado para se descrever sua estratégia, que com freqüência mergulha no reforço das tradições nacionais para mobilizar o apoio político dos eleitores - afinal, é uma democracia onde diversos partidos disputam o poder, inclusive com a carta do fundamentalismo religioso/nacionalista.

A análise mais interessante é que li “India, a wounded civilization”, do escritor V.S. Naipaul, que nasceu no Caribe em uma família indiana. O livro é uma reportagem que relata sua viagem pelo país no fim dos anos 70, época do “Estado de Emergência” de Indira Gandhi, com supressão das liberdades civis.

Naipul acreditava (não sei se mantém a opinião) que as tradições culturais e intelectuais da Índia eram incompatíveis com o mundo moderno, da indústria, dos computadores e do secularismo. Seu relato traz vários exemplos das dificuldades de se conciliar o sistema de castas, os princípios religiosos, a situação da mulher e toda a estrutura social indiana com os padrões importados do Ocidente.

Contudo, as sombrias previsões do escritor não se concretizaram. A partir dos anos 90 a Índia se tornou um dos países com maiores taxas de crescimento econômico. É uma potência em ascensão, com domínio de áreas chaves na tecnologia (em especial informática), armas nucleares e uma importância crescente nas instituições internacionais, incluindo universidades. Apesar disso, persistem tensões sociais muito sérias, como a discriminação da casta dos intocáveis (foto) e conflitos entre hindus e muçulmanos.

4 Comentarios:

Anonymous Helvécio said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

A civilização indiana é fascinante também. Foi Ghandi que disse uma vez que o problema do cristianismo são os cristãos? e aquele partido do congresso? ainda é forte?

Abraços,
Helvécio

setembro 09, 2005 12:43 AM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, meu caro.

Não conheço essa frase de Gandhi, mas não me parece dele, que sempre demonstrou um grande respeito pelas religiões e, cá entre nós, não era um sujeito bem-humorado.

O Partido do Congresso segue como o principal da Índia e está no poder atualmente, levando adiante o programa de reforma econômica que iniciou há 15 anos.

Mas tem enfrentado oposição crescente de novas forças, como BJP, que joga a cartada do fundamentalismo hindu.

Abraços

setembro 09, 2005 1:04 PM  
Anonymous smart shade of blue said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

O Toynbee era da opinião de que nenhum país conseguiria obter maestria sobre os métodos de produção e a ciência ocidental sem levar "o pacote completo", isto é, o conjunto de valores ocidentais.

O Japão e de certa forma a Turquia parecem confirmar a tese (até certo ponto), mas China e Índia são lugares a observar atentamente, junto, talvez, com o Irã.

abçs

setembro 10, 2005 1:23 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, Smart.

No que toca ao debate "modernização e ocidentalização", sempre penso no enorme debate que dividiu a Rússia no século XIX e que aparece tão bem nos grandes romances do período.

Ou seja, o confronto entre seguir o padrão dos países mais avançados ou buscar um modelo próprio a partir das tradições locais.

Ambos são dificilíssimos. O mundo bem que poderia vir com um manual de instruções.

setembro 12, 2005 5:20 PM  

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