terça-feira, julho 19, 2005

Desenvolvimento como Integração



Minha amiga Júlia me recomendou ler a entrevista com o sociólogo Hélio Jaguaribe, que saiu na Folha de S. Paulo de segunda-feira. Ele analisa a crise política, mas o ponto mais interessante é seu balanço sobre as possibilidades para o desenvolvimento do Brasil. Jaguaribe afirma que é hora de abandonar o modelo nacional e pensar numa esfera mais ampla, regional, abarcando toda a América do Sul num projeto de integração. Também convida os jovens na faixa dos 30 anos a retomarem os debates sobre os rumos do desenvolvimento no país.

A entrevista com Jaguaribe foi publicada no mês em que se completam 50 anos da fundação do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), do qual ele foi um dos principais pensadores, ao lado de Cândido Mendes, Nélson Werneck Sodré, Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto etc. O Iseb foi o centro de referência intelectual sobre desenvolvimento do governo JK ao de João Goulart. Os militares o fecharam após o Golpe de 1964.

Os jovens assistentes de pesquisa do Iseb, incluindo meu orientador, se reuniram a Cândido Mendes e conseguiram financiamento da Fundação Ford para criar um centro de estudos com objetivos semelhantes, para não permitir que o legado do instituto morressse. Foi assim que nasceu o Iuperj, onde curso o doutorado. Mas muita água passou sob a ponte desde então: as principais discussões dos iuperjianos são sobre democracia, pouco tratamos de desenvolvimento. E o pensamento nacionalista, de construção do Estado, dos anos 50 foi substituíto pelos métodos em voga nos EUA, cujo foco metodológico é nos indivíduos ou em grupos de interesse.

Contudo, algumas das idéias do Iseb permaneceram e deram frutos. Jaguaribe foi pioneiro em defender a integração na América Latina, numa época em que o próprio Itamaraty não morria de amores pela idéia. Hoje o Iuperj tem um importante Observatório Político Sul-Americano e sua coordenadora, minha guru Maria Regina, gosta de dizer que o capitalismo contemporâneo exige economias de escala por parte das empresas, para competirem globalmente, num contexto mais amplo do que os dos mercados nacionais: "No mundo atual, só as regiões sobrevivem. Ou países do tamanho de continentes, como os EUA e a China, ou regiões que se integrem, como a Europa."

Claro que estamos no mesmo caminho na América do Sul. O processo de integração beneficia o Brasil, dando ao nosso país acesso a matérias-primas, fontes de energia (petróleo e gás), mercados consumidores e portos no Oceano Pacífico, rumo às economias emergentes da China e da Índia. A questão é que esse modelo beneficia setores muito concentrados, como o agronegócio. A integração externa - no âmbito do continente e da economia internacional - é vital para o Brasil, mas é igualmente importante a integração à sociedade dos grupos mais pobres, que sempre ficaram à margem do processo, mesmo em épocas de fartura como o "milagre" da Ditadura Militar.

Esse aspecto social fundamental está ausente do projeto político do PT, mesmo antes dos escândalos de corrupção. Mas isso é tema para outros posts.

2 Comentarios:

Blogger jd said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Eu adoro esse blog...
Você é muito bom nisso companheiro!

julho 20, 2005 2:29 AM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Caro,

Obrigado, já estou viciado nisto aqui. Aproveito para lembrar que o blog também é seu, e o convido a escrever com mais freqüência.

Abraços,

julho 20, 2005 1:13 PM  

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