segunda-feira, junho 13, 2005

Chile: a atualidade do passado


A favorita à presidência do Chile Posted by Hello


No fim ano irão ocorrer eleições presidenciais no Chile e a favorita é a socialista Michelle Bachelet, uma médica que foi presa política durante a ditadura de Pinochet, junto com a família – o pai era general da Força Áerea e aliado de Salvador Allende. Após a redemocratização, foi ministra da Saúde e a primeira mulher a ocupar a pasta da Defesa, onde conduziu no governo Lagos uma corajosa política de direitos humanos e reparação dos crimes da ditadura.

Minha visita a Santiago no ano passado foi marcada por excelentes conversas sobre a política no país, inclusive com o ex-ministro da Fazenda de Allende, que foi palestrante no evento que organizei. O Chile é muito citado como uma história de sucesso econômico. De fato, o PIB cresceu muito, a inflação foi controlada e as condições sociais são bastante boas. Mas a desigualdade é imensa, só inferior ao Brasil.

O que mais me impressionou foi um clima de desânimo e abatimento nas pessoas, inclusive com taxas altíssimas de depressão e suicídios. Marca de uma sociedade autoritária, que ainda vive de modo muito intenso os conflitos da era Pinochet.

Li por estes dias dois bons livros que me ajudaram a entender um pouco do que se passa além da cordilheira: “El Quiebre de la democracia em Chile”, de Arturo Valenzuela e “Chile, un país dividido: la actualidad del pasado”, de Cláudio Huneeus. O primeiro é um excelente estudo sobre as tensões sociais que precederam o golpe, abordando os anos 60 e 70. O segundo é um painel, a partir de pesquisas de opinião, sobre as atuais posições dos chilenos face à ditadura e ao legado do general Pinochet. A conclusão principal é que persiste uma significativa base social autoritária no pais, cerca de 1/3 do eleitorado. Quase ganhou a última eleição presidencial.

Apesar disso, desde a redemocratização em 1990 o Chile vem sendo governando por uma coligação de centro-esquerda (democratas-cristãos e socialistas), que basicamente manteve o modelo liberal da economia de Pinochet, centrada na agroexportação, e tenta compensá-lo pro meio de políticas sociais e da retomada dos direitos humanos. O desafio é o mesmo de uma série de presidentes em nosso continente. Escrevi até um artigo sobre "O Modelo Chileno e os Dilemas da América do Sul."

Boa sorte a Michelle. Tem a simpatia e a torcida deste blogueiro.

2 Comentarios:

Blogger BB said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Caro,

Você apontou bem o que, na minha opinião, ainda é o grande problema chileno: a polarização extrema de sua sociedade. A era Pinochet nunca "acabou" de verdade por lá - na verdade, como você salienta, a base de apoio à ditadura por lá é forte e passa muito bem. Imagine se a Argentina tivesse tido bons índices de crescimento e não tivesse perdido a Guerra das Malvinas -- esta é um pouco a situação do Chile.

Na única vez em que estive em Santiago pude perceber com clareza esta polarização. Vi inclusive pessoas discutindo no meio da rua, de dedo em riste, defendendo e atacando o governo Pinochet.

Como sempre, um excelente texto no OPSA! Parabéns!

Abraço.

junho 13, 2005 4:54 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, BB.

Talvez seja isso que torne o Chile tão fascinante para mim. Ontem no IUPERJ discutimos um pouco o país, porque usei os governos Frei e Allende como exemplo numa discussão sobre paralisia decisória e dificuldades dos presidentes com o congresso.

Um dos colegas de turma, que é pesquisador no OPSA, inclusive me recomendou livros sobre o governo Pinochet. A chave para entender seu sucesso com o chileno me parece mesmo o bom desempenho do modelo econômico.

Abs

junho 15, 2005 4:49 PM  

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