quinta-feira, dezembro 14, 2006

Verbitsky


Uma das novidades mais estranhas do governo Kirchner é ver o jornalista Horácio Verbitsky moderando sua veia crítica e se alinhando ao oficialismo. A ediçäo argentina da Newsweek trouxe nesta semana uma boa entrevista com o veterano repórter, que ganhou destaque escrevendo livros sobre temas explosivos como torturas e assassinatos na ditadura militar (El Vuelo), as ligaçöes da Igreja Católica com o regime autoritário (El Silencio, Doble Juego) e a corrupÇao desenfreada no Menemismo (Robo para la Corona). Verbitsky também conquistou respeito como presidente do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), uma das ONGs que mais contribuíram para revelar as violaçöes de direitos humanos no regime militar.

Kirchner foi eleito presidente com apenas 22% dos votos, basicamente por sua atuaçäo anti-Menem e porque era um político de província, da remota Santa Cruz, sem envolvimento com as máfias e escändalos da elite nacional. Näo tinha um programa definido e precisava de apoio. Acabou se tornando o principal defensor da agenda de reparaçäo dos crimes da ditadura. É impressionante como essa questäo ganhou força em seu governo. Um marciano que chegasse à Argentina pensaria que o regime autoritário acabou há poucas semanas, apesar do fato ter ocorrido há mais de 20 anos.

A Newsweek chama Verbitsky de "o jornalista mais influente junto ao governo Kirchner" e lhe dá o crédito por ter inspirado várias medidas adotadas pelo presidente. Kirchner foi militante da Tendëncia, um setor de esquerda da juventude peronista nos já remotos anos 60 e 70. Mas nunca se envolveu com a luta armada. Fotos da ditadura inclusive o mostram em palanques ao lado de comandantes militares, embora no breve momento de euforia nacionalista pela ocupaçäo das Malvinas.

Talvez o maior triunfo politico de Kirchner tenha sido a exitosa renegociacao da divida externa. Mas persistem problemas economicos. A Argentina tem crescido a taxas altíssimas desde 2002, ou antes está recuperando os 20% do PIB que perdeu entre 1998 e 2001. Contudo, esse crescimento se dá de maneira desigual, concentrando renda. O pais hoje tem um fosso entre ricos e pobres quase täo ruim quanto o do Brasil, com uma significativa parcela de 10% da populaçäo vivendo na indigëncia.

A resposta do governo tem sido políticas sociais de assistëncia, como o Chefes e Chefas de Família. É semelhante ao nosso Bolsa Família, só que paga valores mais altos. Também há uma política (falha) de congelamento de preços, que näo tem conseguido deter a inflaçäo e provocou desabastecimento em algumas regiöes. A relaçäo com os movimentos sociais é o que descrevi no post sobre os piqueteros.

2 Comentarios:

Blogger Igor said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Então esse senhor é que é o detentor do quarto poder na Argentina. Vou caçar coisas dele para ler!

Que coincidência o livro que falei ser do seu professor! Vc tem como arranjar um para mim e mandar para o Brasil? É que é simplesmente impossível achar um aqui..

E Argentina parece ser um tema quente para a prova de PI do IRBr...

Tô tentando entender melhor essa nossa América Latina, mas tenho que confessar que tem coisas que são difíceis de entender!! Hahahaha

Abração, Maurício!!

dezembro 14, 2006 8:28 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, meu caro.

Näo é tanta coincidëncia, o Russell é referëncia obrigatória para quem quer estudar RI na Argentina. Pode deixar que compro o livro e levo para vocë. Devo passar as festas de fim de ano no Brasil, só espero o site da Gol voltar ao ar para comprar a passagem...

Abraços

dezembro 15, 2006 5:25 PM  

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