segunda-feira, novembro 27, 2006

Mil Faces de Evita


No domingo visitei o Museu Evita. Ele foi inaugurado ano passado e ainda näo consta em vários guias de turismo - só fiquei sabendo de sua existëncia porque ele está listado no mapa turístico que peguei no quiosque da prefeitura.

O museu näo é muito grande mas conta a história de Maria Eva Duarte de Perón em detalhes, com fotos, vídeos e objetos pessoais. O mais impressionante säo as imagens de seus funerais - que duraram 14 dias - e o registro da manifestaçäo que pediu a libertaçäo de Perón em outubro de 1945, quando ele foi preso por seus rivais no governo.

O peronismo de modo geral, e Evita em particular, continuam a ser altamente polëmicos na Argentina e nesse sentido o museu é muito interessante tanto pelo que silencia quanto pelo que mostra. Näo há mençöes às acusaçöes de corrupçäo, nem à campanha que o grupo guerrilheiro Montoneros fez pela devoluçäo de seu cadáver.

Também senti falta de uma seçäo que mostrasse as representaçöes de Evita, uma vez que ela virou um dos grandes mitos argentinos. O livro de visitas do museu tinha assinaturas dos EUA, Irlanda, Canadá, Finländia... Certamente muitas dessas pessoas vieram atraídas pelo musical em que Madonna interpreta Evita.

Uma turista americana escreveu que gostaria que lhe explicassem porque Evita despertou tanto ódio, algo que näo fica claro no museu, onde se destacam suas atividades filantrópicas e sociais. Na foto que ilustra este post, Evita chora abraçada a Perón, ao anunciar à multidáo que desiste de concorrer à vice-presidëncia.

Outra desonestidade do museu é colocar o nome de Victoria Ocampo como uma lutadora, ao lado de Evita, dos direitos das mulheres. Ocampo foi uma intelectual brilhante que fundou a revista Sur, provavelmente a melhor publicaçäo cultural da América Latina na primeira metade do século XX. Ela de fato batalhou pela emancipaçäo feminina, mas era de uma família aristocrática e foi opositora ferrenha do peronismo, chegando a ser presa por conta disso.

O museu pertence ao governo federal e foi inaugurado na gestäo Kirchner, que se vincula às tendëncias de esquerda do peronismo, que tiveram seu auge no início dos anos 70. Neste país a história parece sempre presente na política, mas talvez isso seja uma espécie de maldiçäo.

3 Comentarios:

Anonymous Anônimo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Comentário exarcebando meu liberalismo normal: Isso que dá o governo se meter nessas coisas. Claro que o museu vai ficar chapa branca. Se bem que fazer um museu pró-peronismo na Argentina garante público cativo por muito tempo.

novembro 28, 2006 4:48 PM  
Blogger Sergio Leo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Não consigo ouvir falar em Evita sem lembrar de duas coisas. Esse papel político que ela teve, e você bem lembra. E as barbaridades que fizeram com o corpo dela, embalsamado e transformado em brinquedinho para militares tarados. Coisa de novela.

novembro 29, 2006 4:39 PM  
Blogger Maurício Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, meus caros.

Bem, Igor, nao conheco o museu da Carmem Miranda, mas pelo tamanho da construcao, nao deve ter muita coisa. Mas ha a biografia dela escrita pelo Ruy Castro, que eh excelente.

Paulo, a Argentina eh tao dividida ente peronismo e anti-peronismo que realmente nao sei se o museu eh popular. Eu o visitei numa tarde de domingo onde havia somente meia duzia de gatos pingados...

Sergio, o museu faz uma referencia muito superficial as, digamos, desventuras do cadaver. Eh ate um trecho bonito, com uma gravacao de uma irma da Evita falando a respeito dos sentimentos da familia.

Abracos

novembro 29, 2006 7:22 PM  

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