segunda-feira, novembro 13, 2006

A Visäo do Outro



Nesta manhä dei uma aula na universidade sobre como a política externa da Argentina é encarada no Brasil. O foco foi o governo Menem, meu tema de pesquisa, pois naquele momento houve um giro que buscou "relaçöes carnais" com os EUA, uma ruptura com a história de distäncia e desconfianças entre Buenos Aires e Washington. Mas também tratei do período atual, dada a curiosidade que há por aqui sobre Lula.

Ressaltei os objetivos diversos da Argentina e do Brasil com relaçäo ao Mercosul. O governo Menem via no bloco o primeiro passo para um processo de liberalizaçäo comercial mais amplo, de adesäo ao Nafta ou à Alca, enquanto para o Brasil a integraçäo regional é uma maneira de consolidar posiçöes de liderança na América do Sul, além de ter um caráter bem mais protecionista em termos de tarifas.

Outro aspecto que discuti com os alunos foi a visäo que os argentinos tëm de sua própria história como um declínio com relaçäo à era da prosperidade agrário-exportadora do início do século XX. No Brasil, a história nacional está muito mais vinculada com o fortalecimento do Estado e do processo de industrializaçäo. Comentei com eles que me impressiona a "presença da história" no cotidiano argentino, com inúmeras referëncias ao peronismo, à ditadura militar etc. Também questionei a visäo de certos autores argentinos que afirmam que o Brasil sempre foi aliado dos EUA, pois esta é uma caracterizaçäo que só se aplica de fato até a década de 1950.

Tudo isso gerou um debate muito rico em sala de aula, que me deu várias idéias para a pesquisa, mas o que mais gostei foi a discussäo sobre a liderança do Brasil na América do Sul. Disse aos estudantes que há tensöes entre o projeto de integraçäo regional e as ambiçöes internacionais brasileiras, além de preconceitos e racismo na maneira pela qual nosso país se relaciona com os vizinhos. Afirmei que a liderança traz custos e que os brasileiros sequer sabemos compartilhar poder dentro do nosso país desigual e violento, quanto mais dividir influëncia em um bloco regional.

A identidade - seja a individual, seja a nacional - sempre se constrói a partir do contraste com o Outro. Sou brasileiro porque näo sou argentino ou chileno. E a visäo do Outro também nos enriquece e nos ajuda a nos compreender. O clima de discussäo aberta e fraterna na aula também levou a questionamentos por parte dos argentinos, que me disseram que a crise de 2001 levou o país a se redescobrir parte da América Latina, deixando de lado interpretaçöes anteriores que acreditavam que ele era mais próximo da Europa ou do Primeiro Mundo.

Agora, de volta às leituras. E amanhä devo começar as entrevistas para a tese com políticos e diplomatas.

2 Comentarios:

Blogger Sergio Leo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Professor, acho que v. concorda que, quando se fala do Brasil e o governo Menem, há que se dividir essa relação em duas fases: quando começou o Mercosul, inclusive com a decisão de acelerar o cronograma e apressar a criação da União Aduaneira, quem estava no governo era o Collor, e o projeto não era de integração, mas também de liberalização comercial e "modernização" pela via da competição externa...

Com FHC a coisa fica bem como v. descreveu; Menem querendo ser satélite privilegiado da economia americana e o Brasil sonhando com uma liderança implícita de uma América do Sul integrada.

E, afinal, como seus alunos vêem essa pretensão de liderança brasileira?

novembro 13, 2006 4:43 PM  
Blogger Maurício Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Caro Sergio,

creio que säo trës fases. Destacaria também uma primeira, Alfonsín-Sarney, na qual o projeto de integraçäo ainda é apenas bilateral e mais focado em cooperaçäo industrial do que propriamente em liberalizaçäo.

Depois há uma virada liberal que inclui a adesäo do Uruguai e do Paraguai. Hoje entrevistei o ex-secretário de planejamento de Menem que me chamou a atençäo para o fato que o Tratado de Assunçäo é simultäneo à decretaçäo da convertibilidade na Argentina. Objetivos externos e domésticos.

Todos por aqui vëem as pretensöes de liderança brasileira como confusas, pouco claras e em contradiçäo com os objetivos internacionais do país (por exemplo, CS ONU) e o pouco entusiasmo com supranacionalidade e divisäo de poder no Mercosul.

Caro Igor,

várias das conversas mais interessantes que tive por aqui foram sobre identidade nacional. Inclusive, terei que estudar o construtivismo mais a fundo, para usar na tese.

Seu artigo serviu às mil maravilhas, obrigado.

Abraços

novembro 14, 2006 7:36 PM  

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