segunda-feira, setembro 11, 2006

Setembros




É 11 de setembro de 2001 e acabo de chegar na redação. Passo por uma amiga e dou “bom dia” ainda sonolento, início de manhã. Vou para meu computador e abro resenhas que preciso revisar. Dali a pouco ela avisa, caiu um avião em Nova York. Na semana anterior tinha havido um problema qualquer com um monomotor na cidade, pensei em algo semelhante. Ligo a TV na CNN e a imagem mostra uma coluna de fumaça saindo de uma área verde. Será o Central Park? A locutora fala alguma coisa sobre Washington e o Pentágono sob ataque. Fecho os arquivos das resenhas. Sei que não voltarei a abri-los tão cedo.

É 11 de setembro de 2004 e estou exausto num vôo entre São Paulo e Rio de Janeiro, fim de uma longa viagem que começara 12 horas antes em Johannesburgo, na África do Sul. O piloto se dirige aos passageiros e diz que aquela data é importante e merece ser celebrada. Eu e meus colegas nos entreolhamos preocupados.

É setembro de 2003 e estou terminando de escrever minha dissertação de mestrado em Ciência Política, tendo como tema a diplomacia americana após os atentados terroristas contra Nova York e Washington. Concluo que os ataques colocaram em primeiro plano uma agenda política que já existia de modo secundário desde o início da década de 90. Ela só precisava de uma grande crise internacional para vir à tona e conquistar a opinião pública.

É setembro de 2005 e penso na cor na qual pintarei a sala do meu novo apartamento. Não quero branco ou bege. Amarelo, talvez?

É 11 setembro de 2001 e a redação está a mil. Examino os arquivos fotográficos da Reuters e da France Presse e seleciono imagens para o site de notícias em que trabalho. Alguém tenta se comunicar com a sede da empresa, em Tribecca, a alguns quarteirões do World Trade Center. Sabemos que ela foi evacuada, mas não temos os detalhes.

É setembro de 2002 e estudo diplomacia americana numa disciplina do mestrado. Discutimos a crítica que Hans Morgenthau faz à doutrina da Contenção, o eixo da política externa dos EUA durante a Guerra Fria. Esse troço é ideológico e confunde o nacionalismo russo com a expansão do comunismo, diz Morgenthau. Observo que é uma confusão muito cômoda, que permite mascarar gastos militares e decisões agressivas como sendo um simples e legítimo gesto de autodefesa.

É setembro de 2005. Amarelo. Definitivamente amarelo.

É 11 de setembro de 2001 e minha chefe dá a ordem, “ninguém sai para almoçar!”. Pedimos sanduíches na lanchonete mais próxima. Adrenalina a mil. Alguém me pergunta se eu acho que foram mesmo os árabes. Respondo, confuso, que parece sofisticado demais para um grupo terrorista, pelo nível de planejamento exigido. Éramos rapazes ingênuos naqueles tempos...

É 11 de setembro de 2004 e o piloto continua seu discurso dizendo que a data deve ser louvada porque marca o aniversário... da adoção do código do consumidor brasileiro. Não é engraçado. Nem de longe.

É setembro de 2001 e chego ao Iuperj para prestar a prova de seleção à pós-graduação. No pátio central, alunos discutem o Hezbolá e a Al-Qaeda. Semanas depois almoço com meu irmão num restaurante em Varadero, Cuba. O garçom pergunta se somos árabes. “Brasileiros”, respondo. Ele não acredita: “Mas cristãos? Ou mouros?”. Na verdade, sou agnóstico, mas digo em meio à risadas que “soy cristiano”, em homenagem à religião na qual fui batizado. Às vezes acho que perdi um bom desconto naquela refeição.

É 11 de setembro de 2006. Dei aula pela manhã sobre economia política internacional. Revi artigos sobre direitos humanos, conversei com o assessor de imprensa sobre possíveis textos a respeito da articulação Índia, Brasil e África do Sul, preparei dois relatórios, tentei pagar contas (o banco estava lotado), discuti projetos de cooperação com universidades brasileiras e francesas, chequei preço de livros, pedi um sorvete de chocolate, fiquei de emprestar um Vargas Llosa para uma aluna.

A vida segue.

7 Comentarios:

Anonymous Marcus said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Muito bom o texto, Mauricio. Lembrou um roteiro desses documentários modernos, fragmentados.

Naquele dia meus pensamentos viajaram loucamente, sem coerência, tentando entender os motivos e projetar as perspectivas para a frente.

setembro 11, 2006 9:29 PM  
Blogger Igor said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

O texto tá irretocável. Não há o que dizer.

Há, na verdade, perguntas a fazer: o almoço pode ser sexta ao invés de quarta? quando é que serei convidado para conhecer a sala amarela? lembro que vc mencionou duas aulas extras que haviam sido acrescentadas ao curso do Clio e lembro tb que elas aconteceriam em setembro (de 2006, não custa dizer). Quais são os dias mesmo?

No mais, vida que segue - em meio a livros, apostilas, artigos e aulas.

Abraço forte

setembro 12, 2006 3:02 PM  
Anonymous Gigi said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Muito legal este seu post. De alguma forma mostra o sentimento de todos nós imersos neste dia tragico e compartilhando pra sempre este 11/9.

setembro 12, 2006 11:05 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, Marcus.

Às vezes minha vida parece um desses documentários pós-modernos, com o tempo fragmentado, a imagem fora de foco e diálogos incoerentes.

Igor,

Pode ser na sexta sim, sem dúvida. Aí marcamos sua visita à Sala Amarela (O Green Room da OMC vai morrer de inveja!).

As aulas extras talvez fiquem com o Paulo, acho que não conseguirei encaixá-las nos meus horários.

Gigi,

vai ser um desses dias em que daqui a 20 anos as pessoas se perguntarão "Onde você estava quando...?". Marco histórico, sem dúvida.

Abraços

setembro 13, 2006 9:19 AM  
Blogger Sergio Leo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Grande história Maurício, digo, grande petit histoire.
Que site de notícias é esse onde trabalhou? V. sabe que invejo sua libertação do meio jornalístico; isso é coisa que se tem de fazer cedo...
Não sabia desse texto do Morghentau. Interessante, que é ele o modelo de "realista", a realpolitik que encanta os falcões de Washington. A diferença é que era um intelectual. Os realistas atuais são negociantes.
Em 2001, nesse dia, também fiquei com os olhos grudados na TV. Mas estava em outro planeta, na sucursal de Brasília de um jornal econômico, a redação não poderia estar mais calma. Nos primeiros momentos, só pensava no que estaria acontecendo com o Museu do Jazz e com os ótimos bares em torno da Sétima Avenida, tão perto daquele desastre. Depois, caiu a ficha. Pobre ficha, outra vítima inocente do terrorismo internacional.

setembro 13, 2006 9:36 PM  
Blogger Sergio Leo said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Ah, uma coisa: empréstimo de romance a aluna, é? Cuidado, isso dá inquérito em certas universidades. Pega leve, professor.

setembro 13, 2006 9:37 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Salve, Sergio.

Trabalhei por dois anos na StarMedia Network, um portal de Internet americano que editava vários sites no Brasil, o mais conhecido era o Cadê?. Entrei lá como redador e saí como subeditor de cultura. Foi uma boa época, mas foi legal ter ido fazer o mestrado em CP.

Quanto ao inquérito, receio que estarei bem complicado, porque a transação também envolve minha aluna me emprestar um romance. Vou começar a preparar os argumentos para o habeas corpus.

Abraços

setembro 14, 2006 10:24 AM  

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