terça-feira, setembro 05, 2006

Fratelli




O que fazer com a herança revolucionária quando não há Revolução à vista?

Durante a ditadura militar uruguaia, um grupo guerrilheiro havia roubado US$20 milhões do caixa 2 de empresas multinacionais instaladas no país. Dinheiro sujo, destinado à corrupção. Pouco depois do assalto, a rede foi desbaratada e todos fugiram, exilaram-se ou foram presos. Julgavam que a fortuna havia sido perdida. A morte do líder do grupo – conhecido pelo codinome Fratelli (irmãos, em italiano) promove o reencontro de todos em Montevidéu e a descoberta de que o dinheiro está a salvo numa conta secreta da Suíça. Cada um tem apenas um pedaço da senha, de modo que precisam colaborar. A questão: que destino dar à fortuna? Eis a trama de “Fratelli”, excelente romance de Eduardo Mariani. (clique neste link do Globo para ouvir o autor lendo o início do livro).

Depois de tantos anos, cada amigo seguiu um rumo e alguns se afastaram muito dos ideais da juventude. Moreno virou pequeno industrial na Itália (“sua liberdade o desconcertava. Ele a havia desejado muito, mas, tendo-a, se perguntava se não era um pouco parecida com solidão e indiferença do mundo”), Triana tornou-se médica na França. Marambio ficou no Uruguai e seguiu carreira como acadêmico e consultor empresarial (“Aventava-se seu nome como ministro ´técnico´ de um provável governo da esquerda.”). Brianza transformou-se num popular ator de TV (“Para ele, a revolução havia sido uma aventura, e tinha se visto nela no papel do herói, que não se furtava a encarnar ainda hoje.”). Outros foram vivendo como profissionais liberais ou pequenos comerciantes, sem nenhuma utopia que os unisse.

Mas acima de tudo e de todos, há Gaby. Bonita, sedutora, sem muitos escrúpulos, fugiu para Cuba e ascendeu a um cargo de importância no aparato de segurança do regime de Fidel. Ela se considera a única representante legítima da Revolução e pleiteia todo o dinheiro. Olha seus ex-colegas com um misto de ternura e desprezo: “Naquela Época, tinha sentido respeito e até amor por eles. Mas o que eram agora? Um pequeno rebanho de burgueses pacatos e conformistas. Só seu passado os diferenciava do mais vulgar dos comerciantes”.

Obviamente, muitos dos membros do grupo contestam os direitos de Gaby – ou de Cuba, dá no mesmo – de ser a continuidade autêntica com os ideais do passado. Atualíssimo nestes dias pós-Fidel.

O romance de Mariani é excelente ficção, com um olhar carinhoso sobre os desencontros e desilusões da geração da luta armada. E também ajuda a iluminar o debate sobre os rumos da esquerda neste início de século XXI, que não é propriamente a época mais feliz da história da humanidade.

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Este blog aderiu à campanha "Xô, Sarney", apoiando Cristina Almeida ao senado e em defesa da jornalista Alcinéa Cavalcante.

5 Comentarios:

Blogger JM said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

setembro 05, 2006 12:05 PM  
Blogger JM said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

O livro parece bastante interessante e de fato atual por tratar de Cuba, neste tempo de incertezas e projeções, e revolução, em um tempo de apatia e pouca subjetividade. Percebo que literatura uruguaia tem marcado presença aqui.

Gostei dos apoios! ;]

setembro 05, 2006 12:08 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Pois é, acabou virando a semana da literatura uruguaia aqui no blog... Nacionalidade à parte, os personagens de Fratelli poderiam ser de qualquer país sul-americano.

Abraços

setembro 06, 2006 10:38 AM  
Blogger Igor said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Maurício,

Estou achando que vc está sendo paga por fora por essa tal família Mariani para fazer propaganda deles por aqui!!

Ai ai ai ai....

Abração, meu caro

setembro 06, 2006 3:14 PM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Ué, família Mariani?

Só conheço o Eduardo!

E meu dever de blogueiro é divulgar a cultura, a boa literatura e o bom cinema!

Abraços

setembro 07, 2006 7:50 PM  

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