quinta-feira, abril 21, 2005

Vitória da Irmã Ediméia


Um pastor alemão Posted by Hello

Há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante, eu estudava num colégio católico, experiência que me deixou agnóstico para o resto da vida. Havia uma velha freira na escola, a irmã Ediméia, que rondava os corredores soturnamente, como o espectro de uma punição ameaçadora. Ninguém sabia o que ela queria castigar, provavelmente só o fato de alguém estar se divertindo (um pecado, quase com certeza). Com o humor típico dos rapazes de 12 anos, a chamávamos de Irmã Diarréia. Ignoro sua influência no Vaticano, mas nesta semana a Irmã Ediméia obteve uma vitória expressiva e o Conclave escolheu o chefe da Inquisição como o novo papa.

Apesar de não acreditar nem em horóscopo, mantenho uma ligação forte com a Igreja Católica, por razões culturais, pessoais (a maioria dos meus amigos segue essa religião) e políticas - muitas das pessoas com quem convivo no trabalho e na pós-graduação foram ativistas nos movimentos sociais católicos dos anos 60 e 70, como JUC, Ação Popular e diversas comunidades eclesiais de base mais ou menos inspiradas pela teologia da libertação. Tempos em que os ventos de renovação que sopravam das ruas arejaram os salões paroquiais e as sacristias. Adoro ouvir suas histórias.

Me acostumei a ver na Igreja uma aliada que defendia as mesmas coisas que eu, guardadas certas reservas - nunca perguntei à irmã Ediméia o que ela achava do casamento gay. Por isso a eleição de Ratzinger foi um tapa na cara, como se os cardeais dissessem à sociedade: "Não damos a mínima para os desejos de mudança de vocês. Danem-se a camisinha, a liberdade sexual, a busca de formas menos rígidas de família e relações amorosas. Vamos voltar o relógio aos anos 50 e azar de quem não gostar disso." No fundo, é apenas acentuar o que o João Paulo II pregava, mas sem o atenuante do carisma pessoal do falecido papa.

Para mim, é o retrato de uma Igreja assustada, acuada diante de um mundo em transformação que ela parece ter dificuldades em compreender e aceitar. Pensei no magnífico sonho do grande inquisidor, do romance "Os Irmãos Karamazovi", de Dostoiésvki, na qual Torquemada prega a Cristo a necessidade de uma autoridade dogmática e inflexível para conter os perigos da liberdade e do questionamento humano.

Com 78 anos, é difícil acreditar que Bento XVI terá um pontificado longo. Esperemos pelo próximo conclave.

5 Comentarios:

Anonymous Marcus Pessoa said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Adorei o texto, Maurício. Aquela parte dos Irmãos Karamázovi é arrepiante mesmo; li o livro na adolescência e até hoje tenho esse trecho na memória, bem como a descrição das atrocidades na conversa entre Alieksei e Ivan.

Concordo com tudo o que você disse, embora não seja mais agnóstico. O que me deixa triste é tanta gente querer tirar dos não-católicos a legitimidade para criticar a Igreja...

abril 21, 2005 6:16 PM  
Anonymous Helvécio said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Essa discussão é estéril. Qualquer papa que assumisse o trono de Pedro não reformaria nada. São dogmas e não um estatuto sindical. Essa história de progressistas e conservadores é conversa fiada!

abril 22, 2005 12:28 AM  
Blogger Vitor Dornelles said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

A experiência de estudar 11 anos em colégio católico também me deixou agnóstico pro resto da vida. No meu caso, a vitória foi da maligna Irmã do Céu (nome irônico, não?). Que Tutátis nos proteja.

abril 22, 2005 1:57 AM  
Blogger Mauricio Santoro said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Marcus,

"Os Irmãos Karamázovi" é um dos melhores livros que já li e o trecho do Grande Inquisidor, o ponto alto do romance. Concordo: de arrepiar.

Helvécio,

As divisões políticas dentro da Igreja são profundas, sempre foram. E certas coisas que parecem existir desde sempre são bem recentes, como a doutrina da infabilidade papal (fim do século XIX).

Não existe nenhum motivo sagrado que impeça, por exemplo, as mulheres de se tornarem sacerdotes. Isso é apenas uma disputa política sobre o papel feminino na sociedade.

Papas com visões diferentes podem mudar a Igreja. Pense em João XXIII e suas reformas, como o uso das línguas nacionais no lugar do latim nas missas, e o padre voltado para o público em vez de ficar de costas.

Vítor,

E se a irmã Ediméia e a irmã Maria do Céu forem a mesma pessoa, certamente a soldo da Opus Dei?

Abraços,
Maurício

abril 22, 2005 8:10 AM  
Anonymous Helvécio said... Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Maurício,

me referia aos dogmas herdados da tradição. houve momentos de retrocesso e avanços como em toda instituição. a infalibilidade está relacionada a questões de fé e não do papa como super-homem. agora quanto ao aborto, casamento de homosexuais...não mudaria, pois como eles mesmo gostam de dizer. "não temos autoriadade para isso." com ou sem divisões!

abril 23, 2005 3:53 AM  

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